O dia hoje é do ferroviário. Mas tem dois personagens brigando para virarem o centro das atenções do último dia do mês de outubro. Enquanto as bruxas têm ganhado espaço nas prateleiras de lojas, nos motivos das festas e até no ritual das crianças, o saci corre por fora para ser o homenageado nas festividades místicas que já viraram tradição.
  O Halloween, ou Dia das Bruxas, vem de uma tradição milenar celta. Mas o feriado foi incorporado na cultura norte-americana e, aos poucos, vem conquistando adeptos em terras brasileiras.
  Incentivado por lojas de compra e aluguel de fantasias, escolas de língua inglesa e bares e restaurantes, já é possível encontrar crianças indo de casa em casa repetindo ‘‘doces ou travessuras?’’.
  Na opinião da diretora do curso de História da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Maria Cecilia Pilla, ainda não existe uma grande identificação dos brasileiros com o Halloween (nome derivado de ‘‘All Hallow’s Evening’’, ou seja, noite de todos os santos).
  ‘‘É uma festa de origem pagã, ligada a rituais camponeses, incorporada pelo cristianismo. Com o tempo, foi ganhando a característica atual nos Estados Unidos e, após a Segunda Guerra Mundial, por conta da forte influência política, econômica e cultural deles, a festa vem chegando por aqui’’, explica.
  A historiadora acredita que só vai existir uma apropriação da data no Brasil se houver uma identificação com os elementos desta celebração. ‘‘O que pode acontecer é reiventarmos as tradições, dando novos elementos a elas. O brasileiro conhece a festa através do cinema, da televisão e das escolas de inglês, mas, para a maioria, ainda é uma idéia distante’’, argumenta Maria Cecilia. Mas ela conta que já recebeu crianças pedindo doces no prédio onde mora.
  Mito tupiniquim
  Enquanto isso, a Sociedade dos Observadores do Saci (Sosaci) trabalha em defesa da divulgação dos mitos e personagens da cultura popular brasileira. O projeto de lei que cria o Dia do Saci já foi aprovado em alguns municípios e estados, mas foi arquivado no Congresso Nacional e não chegou a ser votado na Câmara de Vereadores de Curitiba.
  Para o presidente da Sosaci, Mario Cândido da Silva Filho, ter ou não uma lei que determina a festividade não é o mais importante. ‘‘A idéia de oficializar a data é para facilitar possíveis contribuições dos governos para eventos em comemoração ao nosso folclore’’, argumenta. Ele explica que a intenção não é apagar de vez o Dia das Bruxas, mas sim fortalecer uma tradição nacional.
  ‘‘Já cheguei a ver escolas em área rural enfeitadas com temas do Halloween. Aí já é demais. Consegui convencer as professoras a celebrarem com os alunos a festa do Saci e dos demais personagens do folclore brasileiro’’, conta Mario Cândido.
  Ele acredita que o crescimento da tradição ‘‘importada’’ se dá a uma tendência natural de imitar o que é dos outros, achar que o que vem de fora é melhor.
  Maria Cecilia defende que o Dia do Saci não pode ser imposto. ‘‘Não dá para forçar uma nova tradição, ela tem que ser construída’’. Para o diretor do Centro de Línguas Positivo, Luiz Fernando Schibelbain, cabe às escolas dar respaldo para que uma cultura, ainda não autenticamente brasileira, ganhe espaço.
  ‘‘O Halloween não pode ser considerado uma tradição, eu digo que é uma mania. É difícil mudar uma cultura, mas com a ajuda da escola, aos poucos pode acontecer’’, avalia.

mockup