Uma mania importada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Marcela Rocha Mendes<br>Equipe da Folha 
O dia hoje é do ferroviário. Mas tem dois personagens brigando para virarem o centro das atenções do último dia do mês de outubro. Enquanto as bruxas têm ganhado espaço nas prateleiras de lojas, nos motivos das festas e até no ritual das crianças, o saci corre por fora para ser o homenageado nas festividades místicas que já viraram tradição.
O Halloween, ou Dia das Bruxas, vem de uma tradição milenar celta. Mas o feriado foi incorporado na cultura norte-americana e, aos poucos, vem conquistando adeptos em terras brasileiras.
Incentivado por lojas de compra e aluguel de fantasias, escolas de língua inglesa e bares e restaurantes, já é possível encontrar crianças indo de casa em casa repetindo doces ou travessuras?.
Na opinião da diretora do curso de História da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Maria Cecilia Pilla, ainda não existe uma grande identificação dos brasileiros com o Halloween (nome derivado de All Hallows Evening, ou seja, noite de todos os santos).
É uma festa de origem pagã, ligada a rituais camponeses, incorporada pelo cristianismo. Com o tempo, foi ganhando a característica atual nos Estados Unidos e, após a Segunda Guerra Mundial, por conta da forte influência política, econômica e cultural deles, a festa vem chegando por aqui, explica.
A historiadora acredita que só vai existir uma apropriação da data no Brasil se houver uma identificação com os elementos desta celebração. O que pode acontecer é reiventarmos as tradições, dando novos elementos a elas. O brasileiro conhece a festa através do cinema, da televisão e das escolas de inglês, mas, para a maioria, ainda é uma idéia distante, argumenta Maria Cecilia. Mas ela conta que já recebeu crianças pedindo doces no prédio onde mora.
Mito tupiniquim
Enquanto isso, a Sociedade dos Observadores do Saci (Sosaci) trabalha em defesa da divulgação dos mitos e personagens da cultura popular brasileira. O projeto de lei que cria o Dia do Saci já foi aprovado em alguns municípios e estados, mas foi arquivado no Congresso Nacional e não chegou a ser votado na Câmara de Vereadores de Curitiba.
Para o presidente da Sosaci, Mario Cândido da Silva Filho, ter ou não uma lei que determina a festividade não é o mais importante. A idéia de oficializar a data é para facilitar possíveis contribuições dos governos para eventos em comemoração ao nosso folclore, argumenta. Ele explica que a intenção não é apagar de vez o Dia das Bruxas, mas sim fortalecer uma tradição nacional.
Já cheguei a ver escolas em área rural enfeitadas com temas do Halloween. Aí já é demais. Consegui convencer as professoras a celebrarem com os alunos a festa do Saci e dos demais personagens do folclore brasileiro, conta Mario Cândido.
Ele acredita que o crescimento da tradição importada se dá a uma tendência natural de imitar o que é dos outros, achar que o que vem de fora é melhor.
Maria Cecilia defende que o Dia do Saci não pode ser imposto. Não dá para forçar uma nova tradição, ela tem que ser construída. Para o diretor do Centro de Línguas Positivo, Luiz Fernando Schibelbain, cabe às escolas dar respaldo para que uma cultura, ainda não autenticamente brasileira, ganhe espaço.
O Halloween não pode ser considerado uma tradição, eu digo que é uma mania. É difícil mudar uma cultura, mas com a ajuda da escola, aos poucos pode acontecer, avalia.


