Conhecida por todos os moradores de Tamarana (62 km ao sul de Londrina), a gruta da cidade não é apenas um atrativo turístico. Fonte de água mineral, a apenas dois quilômetros da área urbana, a gruta é cenário para inúmeras estórias do proprietário do local, João Ribeiro de França, de 82 anos, também conhecido como João da Gruta.
  Nascido em Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana), França não se importa de abrir a porteira que dá acesso a gruta a ninguém. ‘‘Já tive medo de perder isso aqui, mas agora não. Isso aqui não é meu, é nosso’’, afirma. Logo em seguida a declaração, João da Gruta confirma a impressão do comentário. ‘‘Sabe, eu sou socialista já faz tempo.’’
  O homem, que apesar da idade, anda com agilidade na pequena reserva de mata nativa de sua propriedade – um alqueire – conta que muita gente já tentou roubar aquelas terras e a água da gruta. ‘‘Em 1946, veio um federal aqui e analisou tudo isso. Eu achei que iria enricar engarrafando água, hoje eu dou para quem quiser’’, declara. São duas minas de água, uma delas que abastece a residência de França, por um mecanismo de roda d’água.
  Para sobreviver, João da Gruta já plantou milho e retirou muita areia do local. ‘‘Hoje eu sou aposentado e vivo com minha esposa e uma neta.’’ Ele recorda que um dos seus 10 filhos já tentou levá-lo para Curitiba, mas ele não se adaptou.
  Hoje, a propriedade pertence ao aposentado, mas ele lembra que só conseguiu os documentos depois que recorreu ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Morador da região desde os cinco anos de idade, ele garante que pagou 46 mil reis pelas terras. ‘‘Depois o pessoal que me vendeu quis tomar de volta, mas eu não deixei.’’
  Antes da despedida, João da Gruta, relembra. ‘‘Olha isso aqui é nosso. Pode voltar quando quiser. Eu acredito que o Lula vai mudar essa situação. Ele até já foi para a China. O caminho é este, o comunismo’’, despede-se. (C.R.)

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