Uma década de Mercado Central
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terça-feira, 16 de outubro de 2007
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Inaugurado em maio de 1997 junto com a Rua da Cidadania Matriz, o Mercado Central levou para um espaço fechado os artesãos que vendiam seus produtos na Praça Rui Barbosa, no Centro de Curitiba. Dos 472 boxes, hoje 63 estão fechados aguardando o final do mais recente processo de licitação para a permissão de uso. E para os vendedores que estão lá desde o início a baixa circulação de pessoas pelo local vem exigindo um trabalho de conquista diária de novos clientes e de fortalecimento do vínculo com antigos fregueses.
Descendente de ucranianos, a artesã Irene Malhovano, de 65 anos, teve uma banca na Praça Rui Barbosa durante 18 anos e desde que o Mercado Central foi aberto vende lá dentro as peças produzidas por ela e pelos familiares. Por um lado foi bom, não chove, a gente não precisa levar a mercadoria para casa, mas na rua vendia melhor. Artesanato já quase não tem mais aqui, não vendia aqui dentro, observa.
Irene também vende sua produção na feira do Largo da Ordem, aos domingos, e compara. Aqui (no Mercado) vêm pessoas de menor poder aquisitivo, que procuram mais peças de uso pessoal. O artesanato para eles é supérfluo, avalia a artesã, que sugere mais divulgação do espaço para os turistas. Os que vêm é porque alguém indica. E o artesanato depende do turismo. Tem pessoas que moram em Curitiba e nunca entraram aqui, não conhecem, afirma Irene. Ela aponta também a concorrência com os produtos importados e vendidos a preços baixos por grandes lojas da região central como uma das causas da diminuição de suas vendas. Antes dessa livre importação eu vendia mais carrinhos. Agora não. Se vende é muito pouco. Competir com chinês está difícil, conta.
Para Nádia Lopes, que trabalha com a família na venda de bichinhos de pelúcia e pantufas artesanais, o movimento diminuiu bastante desde que o Mercado abriu. Antes da inauguração do espaço a sogra de Nádia teve banca na praça Rui Barbosa durante 20 anos e a família continua vendendo seus produtos na rua, aos domingos, no Largo da Ordem. O que vende durante a semana aqui vende em um dia na feira. Aqui está abandonado, devia ser mais divulgado, sugere Nádia.
Outro veterano do local, o comerciante de mel e derivados, Valdir Felice, presidente da Associação do Mercado Central há cerca de
40 dias, explica que a mudança para dentro do Mercado exigiu uma nova postura dos proprietários de bancas. Quando a gente estava na rua o pessoal comprava nosso material. Agora nós temos que vender, afirma. Tem que trazer os fregueses. Quem está aqui é quem está conseguindo trazer a freguesia. Muitas pessoas não se adaptaram, explica.
Aparecida dos Santos é uma das que mudou de estratégia. Lá fora o pessoal estava acostumado com um tipo de venda. Agora tem que criar vínculo com o cliente, tem que ser gentil, conquistar. Aqui o trabalho é esse, avalia. Segundo o presidente, a associação quer estimular a propaganda boca a boca. Estamos precisando disso com urgência, diz Felice. Além de orientar os interessados em se instalar no local, no que se refere à documentação e os trâmites legais. Desde de 2005, é permitida a transferência de uso. Quem não quer mais o seu ponto no Mercado pode indicar um novo candidato e transferir o direito de uso do espaço.
Os associados também estão pleiteando junto à prefeitura a melhoria da iluminação e a retirada dos pombos que fazem ninho lá dentro. De acordo com a assessoria de imprensa da Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs), órgão da prefeitura responsável pelo Mercado, um novo projeto elétrico está sendo elaborado para o local. Com relação aos pombos, a Secretaria de Saúde do município informou que não há uma ação prevista e que não recebeu queixa formal sobre o assunto. O que há é um trabalho de orientação geral para não alimentar as aves e como vedar os locais que favorecem a instalação de ninhos.
Moradora de Ponta Grossa, Edirce dos Anjos, visita o Mercado Central toda vez que vem a Curitiba. Gosto dos paninhos (de prato), chinelos, sempre acho alguma coisinha boa, conta. Cliente antigo, Stefano Pivovarski sai do bairro Água Verde para comprar mel no Mercado. Venho por causa da qualidade do produto, justifica. Já para Josiele de Souza Batista, o local é o shopping dos pobres. Sempre que eu dou uma passada no Centro, entro aqui. Tem coisa linda e barata, né, afirma.


