A segunda maior cidade do Estado mostra um perfil político que mescla modelos antagônicos de governo, calcados em simbologias de pretérito e futuro: se por um lado opta por um passado paternalista já expelido em outras regiões do País, por outro, é esse mesmo modelo que, a cada novo pleito, tem servido de base a uma polarização cada vez mais acirrada entre os eleitores londrinenses. Em outras palavras: apesar de jovem, Londrina se mostra dividida entre os velhos conhecidos populismo e personalismo, arraigados na figura do ex-prefeito por três gestões Antonio Belinati (PP), e um modelo progressista de governo, ainda sem cara definida.
  A análise desse atual diagnóstico político foi feito à FOLHA por três analistas políticos. Entretanto, os números da última eleição, por si só, são reveladores daquilo que os estudiosos apontam: ante as 283.672 pessoas que compareceram às urnas, de um universo de 341.908 votantes, Belinati (138.926 votos) derrotou Luiz Carlos Hauly (do PSDB; 129.625 votos) por uma diferença de apenas 9.301 eleitores. A polarização – não exatamente entre Belinati e Hauly, mas entre estratagemas distintos – se acentua se somados os 15.121 votos nulos e brancos registrados no segundo turno londrinense.
  Na avaliação do professor de Ética e Filosofia Política Clodomiro Bannwart, a última eleição ‘‘deixou bem claro que a cidade está dividida’’. ‘‘É uma percepção de que esse modelo de política paternalista e populista tem uma oposição muito forte, vem em uma decadência, e, nos grandes centros em que tentou persistir, foi praticamente banida da década de 1980 para cá.’’ É essa a polarização definida pelo estudioso, mas na figura ‘‘apartidária’’ de Belinati.
  ‘‘Londrina não conseguiu ainda superar esse modelo anacrônico de fazer política: se mantém conservadora, à medida que escolheu Belinati quatro vezes, mesmo com todos os elementos que pesam contra a biografia dele’’, comentou. ‘‘Ao mesmo tempo, a cidade está muito impregnada dessa divisão em torno de módulos específicos de política; afinal, são três mandatos de Belinati e três de PT’’, analisou, referindo-se aos mandatos do então petista Luiz Eduardo Cheida (1993/1996), hoje no PMDB, e do atual prefeito, Nedson Micheleti (2001/2004; 2005/2008). ‘‘Em compensação, diante dos cenários estadual e federal, fica claro que Londrina assume oposição’’, complementou.

‘Cidade de oposição’
  A cientista política Luzia Herrmann de Oliveira explica que a fama de ‘‘cidade de oposição’’ aos poderes estadual e federal foi conquistada por Londrina nos anos 40, no final do Estado Novo de Getúlio Vargas. Segundo ela, boa parte desse perfil se deve ao fato de a cidade ter se consolidado, àquela época, como importante pólo econômico do Paraná, graças ao café. ‘‘Havia um sentimento meio generalizado de que o dinheiro dos impostos saía de Londrina e não voltava, ficava na capital. Isso criava um sentimento regionalista próprio’’.
  Já durante o regime militar (1964/1984), definiu, o cenário bipartidário de Arena e MDB, criado em 1965, fez com que a cidade entrasse para a segunda fase de sua história política. ‘‘Antigas lideranças de Londrina que não tiveram seu mandato cassado preferiram abrigar-se na Arena, que apoiava o regime militar, mas logo esse grupo desapareceu, pois a população abandonou as antigas lideranças e optou pela oposição, o MDB, que surgiu com políticos jovens’’, cita.
  ‘‘Além disso, Londrina foi politicamente muito importante no período da democratização – surgiram aqui lideranças de expressão nacional, como José Richa, que atuou na linha de frente nessa luta.’’ Uma terceira etapa desse processo de participação, completou Luzia, se deu no impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.
  Indagada sobre que panorama político vê hoje, a analista definiu: o de uma Londrina ‘‘de ligação com as questões republicanas’’ que perpassam as idéias regionalistas e a luta pela democracia, mas, sobretudo, o de uma Londrina atenta à discussão sobre o uso do dinheiro público. ‘‘Há muito tempo a corrupção tem ocupado o centro do debate público, dividindo a cidade. Ao mesmo tempo, ainda há o fator Belinati, político personalista, que apela para o lado emocional e que maneja como poucos os mecanismos populistas. O populismo tem longa tradição no Brasil; Londrina não é diferente’’, ressalvou. ‘‘Mas é preciso lembrar que em 2004 Belinati foi derrotado no segundo turno por 16.000 votos e agora ele venceu Hauly por apenas 9.000 votos’’, indica.

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