Recebo sua carta e, pelos vinte anos que diz possuir, sou quase tentado a chamá-lo de ‘‘meu jovem’’, não fosse tão cômica a expressão nem tão prosaica. Mas revelaria, acredite, uma maneira vital de tratamento, pelo que tem de meu, implícito, um riso gauche e bem descrente. O encanto que você vê, aqui, não exagere, nasce do tempo em nós andando: em você pela trama do futuro e em mim, muitas vezes, pela certeza de que o futuro esteja velho demais.
Não é retórica e, menos, figura de linguagem: você há de convir que para um obsessivo rabiscador de papéis, passado dos quarenta, o amanhã seja só uma impaciência.
Não, não se atreva conosco neste passeio sobre cacos de cristal. Tarde da noite, você jamais nos perdoará a noite minada de escorpiões. Viver a cerimônia secreta da palavra é jogo insensato do qual dificilmente saímos vitoriosos. Impensável imaginar, desde já, que escrever seja uma maneira engenhosa de passar o tempo. Escrever põe a hora nua e atrasa o relógio, todos os relógios, em descenso mortal. Pode que seja a vida parada e o futuro nenhum, pode que seja a cinza dos dias e o presente imóvel.
Atenta, olhar da janela o jeito que o ipê flora, será sempre mais inocente e menos cheio de unhas. Toma pra você a lição do amanhecer, ele não escreve nem fia, mas já é todo um poema infestado de passarinhos. Desejar a aventura da grande cidade, como parece também uma de suas aspirações mais entusiasmadas, é inútil como acreditar que você se mova de si. Não, teu mato e teus cachorros podem pôr melhor no peito de um homem a humanidade inteira. Difícil que escrever seja mais que um grito num dia de cão.
Não queira saber o que seja carregar a madrugada nas costas feito o prisioneiro de um campo de concentração: por entre cercados e arames, a noite nos reduz ao pó de seu silêncio. Nenhum abismo alcança o vácuo desses abismos nos quais temos incorrido com uma frequência de altíssimo risco. Melhor a tua aldeia de demorado horizonte.
A dança do equilibrista no escuro tem sido a nossa dança. E não há inocência neste ofício, todo ele construído de sombra e ímpeto - umas vezes breu, outras pura epifania. Menos fugaz do que a fraca felicidade que possa morar na obsessão do poema, é o vôo da andorinha pelo céu da tua aldeia.
Este andar cambaio, vês?, é o jeito como a tarde exaspera e nos deixa arredios, buscando um sol que cega o desenho da estrela. O que leva, você já perguntou, um homem sozinho, no centro da cidade, a julgar que seja movido pela angústia do eterno? Haverá, com este homem abrigado em seu próprio paletó, a consciência triste de que seja ele o Deus, e que não possa pedir mais nada.
Você fala em rios de inspiração telúrica e confessa com uma insolência de raiz que a febre em você de criar é daquelas que atravessam montanhas. Mais fé que febre, melhor pesar e prever o que possa existir aí apenas de fraternidade por si próprio. Amamo-nos acima de todas as coisas e pôr o centro do universo num só umbigo pode não ser literatura.
De madrugada, então, nem imagine: o poema de opala, retirado do fundo do guarda-roupa, é solene soneto antigo, e diz do amor o poeta francês só o que poderia ter sido mas não foi. Papéis dobrados cheirando a longínquos sachês. Dentro deles, errada!, recados simples de uma noite de vinho e suicídios, de uma noite assim vencida a faca e punhal. Os rios, aí convosco, reformarão Heráclito; aqui temos sofrido turbarem-se os olhos e o coração.
Se não nos dedicássemos ao jogo lúgubre de escrever, também não pareceríamos pessoas simples. Os loucos enchem de rumor o hospício e não seríamos sinceros caso nos desejássemos de outro modo e feitio. Escrever é o que nos salva. Sem outra memória que a memória do chão escrever é o que nos salva.
Olha, não é propriamente amor à primavera o que nos faz inclinados a ver na azaléa nova a flor de um dia, senão o desejo insensato de encerrar a manhã, hermeticamente, dentro de uma lata de pastilhas Walda. Dá pra rir, mais um pouco dá pra rir do afeto que se encerra.
Seres dúbios e quase sempre desafinados, não queira ter conosco, naquele exato momento em que se lançam os dados e, sobre o silêncio do papel, a tua vida se inscreve de júbilo ou pânico. Sem volta e nem retorno. A tua vida, ali, para sempre carcereira do vôo da ave ou do que, aprisionado, ensaia, ainda assim, a favor da liberdade.
Não escreva carta para escritores. Mais vale um lagarto empalhado sobre a cristaleira.

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