Guaratuba - Na Avenida Atlântica, a mais famosa de Guaratuba, no Litoral do Paraná, carros de som anunciam restaurantes, hotéis, pousadas, baladas. Algumas pernadas além, no canto da praia, uma estrutrura montada pelo governo do Estado oferece aulas de dança ao ritmo de axé, jogos de vôlei, atendimentos à saúde. No meio, banhistas se divertem ou descansam, sempre munidos de máquinas fotográficas e isopores de cerveja.
Um dia normal de sol, como em quase qualquer praia do Brasil. Seria, não fosse um dado inovador: uma biblioteca brotando do meio da areia. Entre o mar e os carros passando na avenida, com portas abertas a leitores, desavisados e curiosos, a biblioteca surge, oferecendo obras de diferentes autores, com distintas visões de mundo, formando uma Babel de idiomas e ideias.
Além de Guaratuba, as areias da Ilha do Mel, de Ipanema e de Caiobá também ganharam suas próprias bibliotecas, cada uma com cerca de mil títulos diferentes. ‘‘Retrato do Artista Quando Jovem’’, de James Joyce, ‘‘A Sangue Frio’’, de Truman Capote, ‘‘Lavoura Arcaica’’, de Raduan Nassar, mais clássicos de Gabriel Garcia Márquez (leia ‘‘O Amor nos Tempos do Cólera’’), Thomas Mann, e poetas da estirpe de Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda e Vinícius de Moraes. Os clássicos dividem as prateleiras com best-sellers, como ‘‘O caçador de Pipas’’, de Khaled Hosseini, um dos mais procurados pelos leitores, e ‘‘Marley e Eu’’. Literatura infantil, infanto-juvenil e revistas também ganham espaço.
O projeto, o primeiro da Brasil nesse sentido, é criação do governo estadual. É uma continuação das chamadas Bibliotecas Cidadãs, que levam literatura e conhecimento para os municípios do Estado que não possuem bibliotecas. Como no projeto original, os empréstimos nas chamadas Bibliotecas Cidadãs na Areia são de graça, mediantes a um pequeno cadastro com nome e telefone. Simples assim e sem burocracia.
O leitor pode levar o livro embora e ficar com ele por três dias. Cabe a ele decidir se vai devolver, renovar ou pegar outro livro emprestado. Por dia, entre 80 e 100 pessoas visitam o local e não saem sem um livro debaixo do braço. E,
por incrível que possa parecer, os livros são sempre devolvidos.
‘‘Esse respeito pelo bem público me surpreendeu’’, diz Marta Siena, bibliotecária da Biblioteca do Paraná que durante o verão está trabalhando no Litoral. ‘‘Algumas pessoas perderam o livro e se preocuparam em comprar outro para devolver’’, completa.
Rotina das férias
A variedade de títulos tem surpreendido quem gosta de uma boa leitura. É o que diz Rogério Tonetti, coordenador do projeto no Litoral. ‘‘Já temos esporte e lazer nas praias. O objetivo dessa vez era trazer a leitura para a areia e divulgar a literatura’’, comenta Tonetti, dizendo que a grande procura supreendeu até os envolvidos com o projeto mais otimistas.
O coordenador lembra ainda que a rotatividade dentro da tenda é muito grande. Entre crianças e senhores, muita gente tornou a visita ao local uma rotina das férias. ‘‘Podemos dividir assim: 85% dos frequentadores são pessoas que estão habituadas a ler; 10% são crianças; os outros 5% são de curiosos’’, contabiliza Tonetti.
Ele continua: ‘‘Muita gente vem para praia para fazer festa e se divertir. Mas há uma boa parcela que vem para ler e descansar. A biblioteca acaba sendo o espaço dessas pessas’’. Ao sair do espaço delas, os leitores de praia, ao tirarem os olhos das linhas impressas em um monte de papel entre duas capas – afinal, isso é um livro –, vão olhar o mar, o céu, o horizonte e perceber como eles estão diferentes.

SERVIÇO

As Bibliotecas na Areia estão instaladas temporariamente em praias da Ilha do Mel (Brasília, ao lado do Trapiche), Ipanema, em Pontal do Paraná (Avenida Atlântica, 7.351), Caiobá (Avenida Atlântica, 1.910) e Guaratuba (Avenida Atlântica, 1.700). Funcionam até o dia 15 de fevereiro, das 10 às 19 horas. Sempre aos sábados, a partir das 18 horas, há um bate-papo com um escritor convidado.

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