Um Zôo como sala de aula
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quarta-feira, 06 de junho de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Na semana passada, Dani apareceu com um machucado na orelha. Barnei ensaiava um rock para mostrar aos visitantes e Stella continuava em seu retiro silencioso, provavelmente indisposta devido ao frio. Eles são vizinhos, mas não se comunicam muito. Incompatibilidade de gênios diriam alguns, outros aludiriam ao fato de pertencerem a espécies diferentes.
Barnei é um urubu, Stella uma jibóia e Dani um cachorro-do-mato. Todos são moradores do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), mantido pela Pontifíca Universidade Católica do Paraná (PUCPR) em Tijucas do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC).
O centro foi criado em 1999 e atende cerca de 4 mil animais por ano, em sua maioria aves. Atualmente, aproximadamente 500 deles aguardam encaminhamento em suas dependências.
Todos os meses, chegam ao Cetas dezenas de animais silvestres. A maioria é resultado de apreensões feitas pela Polícia Federal, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Ambiental do Paraná (Iap). Muitos deles estavam em poder de traficantes de animais e chegam ao Centro bastante debilitados, subnutridos e até mutilados. Outros vêm pelas mãos de proprietários que desistem de criar um animal silvestre em casa. A maioria destes casos são tartarugas do tipo tigre-d'água - espécie exótica proveniente dos Estados Unidos - que quando jovens medem pouco mais de 5 cm, mas quando crescem passam de 30 cm.
Logo que chegam ao Cetas, os animais são identificados e passam por um exame clínico. Aqueles que estão saudáveis seguem para uma quarentena, os doentes ficam no ambulatório. Segundo a médica veterinária Grazielle Sorensino, coordenadora técnica do centro, a função do Cetas é destinar os animais recebidos à soltura, a criadouros ou zoológicos.
Como muitos foram retirados da natureza ainda muito jovens e outros não podem retornar a ela devido a danos irreversíveis, o destino destes animais muitas vezes é a eutanásia. ''Menos de dez por cento deles consegue voltar para a natureza'', lamenta Grazielle. ''Alguns ficam aqui para sempre, mas quando estão sofrendo a melhor saída é a eutanásia.''
Dentre os animais que sofreram traumas permanentes nas mãos dos traficantes encontramos várias aves mutiladas, um macaco-prego cego, uma arara que arranca as próprias penas devido ao estresse que passou nas mãos dos captores e outros tantos que nunca poderão voltar a viver em seus habitats naturais.
Segundo Graziella, já passaram pelo Cetas onças e até um leão encontrado em um circo e encaminhado pelo centro a um Zôo em Camboriú (SC). Na opinião da coordenadora, o maior problema é a destinação dos animais. ''Às vezes espécies que não têm destino ocupam lugar de um bicho ameaçado de extinção'', conta.
Entre estas espécies sem destino estão o macaco-prego e a tartaruga tigre-d'água, que dificilmente serão aceitos em outros locais devido ao fato de serem muito numerosos. O centro abriga hoje mais de 60 tartarugas que não podem ser soltas no meio ambiente pois desequilibrariam a fauna local. ''Todo dia chegam estes tigres-d'água. É praga'', afirma Grazielle.


