Um teólogo no canteiro de obras
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 2009
Carolina Avansini<BR> Reportagem Local 
Quando Marcelo Oliveira Rezende, 36 anos, deixou escapar uma expressão em latim no canteiro de obras onde trabalhava como servente de pedreiro, causou desconforto entre os colegas. Estranheza maior, porém, vivenciou o próprio Marcelo que, com graduação em Filosofia e Teologia, duas pós-graduações e um currículo que inclui apresentação de artigos escritos por ele em congressos religiosos, acabou se profissionalizando na construção civil por adversidades da vida.
A história, que chama atenção pelo desencontro entre capacidade intelectual e vida profissional, não é única. Recentemente, no Rio de Janeiro, a inscrição de candidatos com mestrado e doutorado em um concurso de garis ganhou destaque na imprensa nacional pela mesma incompatibilidade.
No caso do teólogo que realizou seus estudos no seminário católico, é especializado em Filosofia e História Antiga e Medieval e tem formação para traduzir 12 línguas antigas - entre elas latim, grego e hebraico -, o sonho de se tornar cardeal foi destruído depois de quase 20 anos de estudos. Por discordar de alguns dogmas do catolicismo, ele acabou saindo da instituição.
Criado pelos tios que o colocaram no seminário aos 9 anos, Rezende estudou um tempo no Rio de Janeiro, onde nasceu, transferindo-se para Londrina acompanhando a família. Quando deixou o seminário, passou a morar de favor na casa de amigos.
Eu tinha que trabalhar para ganhar dinheiro e pagar minha estadia. A única oportunidade que apareceu foi servente de pedreiro. Sem outra coisa para fazer, acabei aceitando, disse ele, que atualmente ganha a vida como pintor autônomo e também restaura móveis antigos. Na época, percebi que o serviço de pintura era mais leve, mais rápido e possibilitava ganhos maiores. Procurei uma oportunidade nessa área e trabalho com isso até hoje.
Sobre o choque cultural sofrido no período em que saiu do seminário e passou a trabalhar no canteiro de obras, ele afirma que a consequência foi uma enorme frustração. Com toda a capacidade intelectual que eu tinha na época, passei a cavar valetas e carregar concreto, exemplificou.
Onze anos depois do acontecido, Rezende, hoje, aceita bem a nova vida e garante que até gosta do trabalho. Aprendi a falar a língua dos peões e tenho excelentes amigos no setor da construção. Até penso em dar aulas numa universidade, mas não pretendo largar a pintura porque é uma atividade que dá mais dinheiro que a vida acadêmica, explicou.
O ex-seminarista está casado e, além dos serviços de pintura e restauração de mobília, dá aulas de Filosofia para alunos carentes de um cursinho pré-vestibular gratuito, de forma voluntária. Apesar de utilizar parte da extensa qualificação que possui nessa atividade, ele não deixa de experimentar a frustração em alguns momentos de reflexão sobre a vida profissional. Às vezes me dá um vazio difícil de explicar. Sinto-me um teólogo silenciado.


