Um rio sobre nossas cidades
Várias vezes ao ano, milhares de metros cúbicos de água saem da Amazônia para irrigar as terras férteis do Sul um fenômeno que intriga os cientistas e motiva aulas de educação ambiental em Londrina.
Se já tínhamos motivos suficientes e amplamente conhecidos para defender a preservação da floresta amazônica, entre eles a manutenção de sua extraordinária biodiversidade, anote aí mais um: depende diretamente dela o regime de chuvas que irrigam os solos férteis de Londrina e região. A água que cai no Norte do Paraná é fruto, muitas vezes, da evapotranspiração de árvores localizadas a dois ou três mil quilômetros de distância. O vapor que se origina lá e se transforma em chuva aqui é o principal item de um fenômeno que há três décadas vem sendo estudado por um grupo de cientistas e pesquisadores: são os chamados Rios Voadores.
Expressão criada pelo professor José Marengo, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), os "rios voadores" são cursos de água atmosféricos invisíveis que transportam umidade da Bacia Amazônica para outras regiões do Brasil. Como uma grande bomba dágua, a floresta amazônica "puxa" para o continente a umidade evaporada do Oceano Atlântico. Em forma de chuva, ela cai sobre a floresta. No momento seguinte, por meio da evapotranspiração, as árvores devolvem a água à atmosfera, que volta a cair como chuva muitos quilômetros adiante (veja infográfico).
Londrina está na rota dessas massas de ar úmido, que costumam chegar ao município com mais intensidade na época do verão. Nos meses de janeiro e fevereiro deste ano, a cidade já registrou sete rios voadores. Em 2011, foram 28 ocorrências e, em 2012, 44 casos registrados. O monitoramento das trajetórias é feito diariamente. Para saber se há algum Rio Voador chegando a Londrina, acesse www.riosvoadores.com.br/mapas-meteorologicos/localidades/londrina.
O fenômeno é acompanhado de perto pelo Projeto Rios Voadores. Com o auxílio de um avião monomotor, a equipe do projeto coletou 500 amostras de vapor de água em vários locais do País, entre 2007 e 2009. Estima-se que o volume de vapor de água transportado pelos rios voadores seja maior que a vazão de todos os rios do Centro-Oeste ou igual à vazão do rio Amazonas. Isso significa 200 mil metros cúbicos de água por segundo.
Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) mostram que uma árvore com copa de 10 metros de diâmetro bombeia para a atmosfera, diariamente, mais de 300 litros de água em forma de vapor. O volume aumenta em copas maiores. Ou seja, uma árvore emite para o ar mais água que dois brasileiros consomem por dia. O desmatamento, o avanço agrícola e as queimadas interferem nesse sistema e causam impactos diretos no clima brasileiro e da América do Sul.
"Ninguém questiona a importância de preservarmos a água, porém às vezes falta fazer a ligação entre a água líquida da torneira e a origem dela. Fazem-se esforços hoje em dia para proteger as fontes terrestres, mas também temos que pensar em proteger as fontes aéreas, as chuvas e a umidade, que as tornam realidade", afirma Margi Moss, integrante do Projeto Rios Voadores.
Margi afirma que as pesquisas científicas ainda não são capazes de prever precisamente os impactos e que, futuramente pode ser tarde demais para reverter a situação. "Anualmente perdemos milhares de hectares de cobertura florestal para, principalmente, dar lugar à pecuária de baixa produtividade", ela denuncia. "A troco de algumas cabeças de boi, arriscamos atrapalhar o ciclo natural que regula nosso clima há milênios."

SAIBA MAIS
No site www.riosvoadores.com.br há textos, fotos e vídeos sobre a Expedição Rios Voadores.
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