Um polo cultural da década de 1960
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Rubia Pimenta<br>Especial para a FOLHA 
Ao longo dos seus 78 anos, Cornélio Procópio sempre foi marcada por movimentos culturais. O que os moradores mais jovens não sabem, e está bastante marcante na memória dos mais velhos, é que, no auge da produção de café, entre as décadas de 1950 e 1960, Cornélio Procópio se destacava por ser um polo cultural do Paraná. "Tínhamos tantas opções quanto Londrina. Nossos artistas saiam para se apresentar lá, e eles vinham para cá, era um intercâmbio forte, estávamos no mesmo nível", lembra a professora doutora em Literatura, da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR) em Cornélio, Marilu Martens Oliveira.
Ela lembra a saudosa Aliança Francesa, que foi fundada em Cornélio Procópio antes mesmo de Londrina, promovendo exibições de filmes, exposições e incentivo à leitura. "Tínhamos também uma academia de balé clássico, do professor Luiz Vilarejos, que fez muito sucesso. As apresentações do grupo no fim de ano lotavam auditórios", lembra.
Cornélio chegou a ter um conservatório de música, que se transformou, posteriormente, em uma faculdade de música, administrada pelo Colégio Nossa Senhora do Rosário. "Havia um grupo forte de piano e até cantoras líricas na cidade, que se apresentavam constantemente", conta Marilu.
Até meados da década de 70, dois cinemas funcionavam simultaneamente. "Eu ia quatro vezes na semana, pois os filmes eram bons. As vezes havia apresentações de teatro e música, após as sessões", diz a professora. Os programas de rádio, com auditório, também eram uma grande diversão. "A Rádio Cornélio e a antiga ZYR5 fizeram história, com apresentações de cantores de variados estilos, duplas caipiras e grupos de rock da cidade. Os auditórios lotavam, e todos acompanhavam as apresentações em casa. Em Cornélio chegaram a produzir até uma radionovela", lembra.
Revistarias e livrarias (hoje quase inexistentes na cidade), eram comuns. A Casa Marival, por exemplo, fundada em 1937, imprimia livros, vendia inúmeros romances e promovia saraus . "Antes da tevê, a diversão do povo era leitura e cinema", conta a professora.
As festas também eram constantes. "Havia muitos bailes, alguns temáticos, promovidos pelas instituições, como Rotary, Lions, ou mesmo por colégios, como o Castro Alves, que era considerado o segundo melhor do Paraná na época. As festas populares eram muito fortes, como a Folia de Reis e o Carnaval, e lotavam os clubes", lembra.
Para ela, a popularização da televisão e da internet mudou o hábito das pessoas. "Antes a diversão era na rua, havia mais interação. Tanto a cultura popular como a erudita eram mais fortes. Ouvia-se música clássica, MPB nas rádios. Agora as pessoas estão mais centradas, individualistas, é difícil levar a população para apreciar um bom filme, uma apresentação de dança, música. É um hábito que precisa ser retomado e incentivado pelas famílias, instituições e também pelo poder público", sugere.



