Uma caminhada pelo calçadão da Rua XV de Novembro, no coração de Curitiba, pode ser uma experiência enriquecedora para sociólogos, antropólogos e até mesmo leigos em análise comportamental, como uma repórter com a missão de identificar personagens que fazem daquela via um espaço de uma diversidade sociocultural ímpar. A Rua das Flores foi a primeira exclusiva para pedestres do Brasil. Mas, acima do aspecto histórico, talvez o que mais chame a atenção é justamente a sensação de viajar por diferentes mundos em um percurso de cinco quadras.
  Disposição para enfrentar um calor de 30 graus e olhar atento. Logo na primeira quadra, entre as ruas Presidente Faria e Riachuelo, aparece nosso primeiro personagem. Corpo atlético e um figurino colorido, muito colorido, composto de camiseta regata, bermuda e boné que, sem dúvida, chama a atenção. Mas ainda não foi desta vez. O rapaz com seus 26 ou 27 anos é apenas um pedestre apressado, que não quer ser interpelado pela reportagem, aliás, como a maioria das pessoas que transita por ali.
  A segunda tentativa, já na segunda quadra – entre as ruas Riachuelo e Monsenhor Celso – foi mais bem sucedida. É hora do descanso do palhaço Sabonete, agora sim, nosso primeiro personagem oficial. Antônio Marcos Moraes adotou a Rua XV como local de trabalho há, mais ou menos, seis anos. Divide as brincadeiras com o palhaço Bagunça – Rogério Pascoal de Oliveira – e assegura que adora o que faz. Sua missão é divertir as crianças que passam por ali com suas ‘‘esculturas em balão’’.
  Moraes diz que não tem do que se queixar em relação ao seu trabalho. Fatura de R$ 20 a R$ 50 e, apesar de ter trabalhado em grandes circos como Bartolo, Moscou e Beto Carrero, gosta de estar na rua. Oliveira também se diverte em meio ao pedestres, mas reclama da ‘‘falta de educação’’ de algumas pessoas que, segundo ele, não respeitam seu trabalho.
  Continuamos nossa ‘‘via-sacra’’. Dois guardas-municipais passam correndo por nós, em direção contrária. Um terceiro vem dar reforço. Tento acompanhá-los, mas eles são muito rápidos. Não consegui descobrir o que se passava, mas foi uma prova de que muita coisa acontece em uma rua onde transitam mais de 100 mil pessoas por dia (o último dado disponível na Prefeitura é do levantamento feito em 2000). E, olhe, que só fazia uns poucos minutos que havia iniciado a caminhada.
  Logo mais adiante, seguindo em direção à Rua Monsenhor Celso está a Confeitaria das Famílias – um dos pontos mais tradicionais da Rua XV de Novembro e um dos poucos que resistiram às transformações do calçadão. Parada obrigatória. O lugar está cheio de clientes se deliciando com as guloseimas de dar água na boca. É tentador, mas eu resisto. Estou a trabalho.
  Um pouco apreensiva, em princípio, a proprietária do estabelecimento, dona Dair da Costa Terzado, vem nos atender. Logo, a senhorinha mostra sua simpatia ao falar dos tempos áureos da Rua XV de Novembro com a autoridade de quem está ali há 62 anos. ‘‘Há uns 30 anos era uma maravilha’’, relembra. ‘‘Agora, aqui do lado, no Boticário, virou pousada de mendigos’’, lamentou dona Dair, desculpando-se pelo modo de falar.
  A Confeitaria das Famílias é o único estabelecimento, naquela quadra, que fica aberto de noite, contou dona Dair, o que, para ela, poderia ser diferente, caso a proposta do projeto Centro Vivo tivesse emplacado. A idéia era estender o horário de todo o comércio no centro da cidade até as 22 horas.
  Para dona Dair, a ‘‘decadência’’ da tão bem freqüentada Rua das Flores começou a se configurar há cerca de 20 anos. Desde então, estabelecimentos tradicionais começaram a fechar a portas, dando lugar a lojas e shoppings populares. ‘‘A Cometa, Confeitaria Schaffer, Casa Londres, todas saíram daqui’’, lembrou ela.
  Quando pergunto o que mantém a Confeitaria das Famílias ali, por mais de seis décadas, a resposta vem de imediato: ‘‘É só o sabor mesmo, a qualidade dos produtos e porque Deus quer’’, argumentou.

UM POUCO DE HISTÓRIA



- A Rua XV de Novembro transformou-se em calçadão, em 1972: a primeira via exclusiva para pedestres, no Brasil. Até então, era a principal rua central para circulação de carros e ônibus.


- Em 26 de julho de 1854, quando Curitiba foi declarada oficialmente capital da Província do Paraná, um mapa da cidade já revelava a existência da Rua das Flores, então com apenas três quadras, no trecho entre as atuais ruas Dr. Muricy (então Rua da Assembléia) e Barão do Rio Branco (à época, inexistente).


- Com a visita de D. Pedro II e comitiva imperial à cidade, em 1880, a via passou a se chamar Rua da Imperatriz - nome oficial até 1889, como homenagem à imperatriz Thereza Christina. Com a proclamação da República, passou a se chamar Rua XV de Novembro. O apelido ''Rua das Flores'' veio com a instalação de canteiros - onde são plantadas flores da época - em todo o calçadão.

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