A história de uma cidade não se conta somente em números e não se limita às páginas de livros. Boa parte de seu valor está nos detalhes arquitetônicos e na memória daqueles que acompanharam cada "passo" de sua evolução.
Em Ibiporã, a trajetória dos primeiros habitantes ao longo desses 67 anos, tem sido foco de projetos culturais com o objetivo de resgatar e preservar a memória do município através do conhecimento popular, pois as histórias mais curiosas, não estão escritas. Quem as mantêm vivas são os pioneiros.
A maioria deles é de descendência italiana e chegou aqui em meados dos anos 1930, atraída pela fertilidade da terra vermelha. Eles vieram aos poucos, mas hoje já formam uma população de mais de 51 mil habitantes.
Vanda Davanzo Gnamm, de 89 anos, é um exemplo. Ela conta que chegou em Ibiporã em 1941, quando o chão vermelho ainda "afundava os pés" e a paisagem era de mata fechada. Sua família foi uma das primeiras a se instalar e enfrentou todas as dificuldades estruturais, como por exemplo, o acesso à água.
"Tínhamos que buscar em um poço, o que dava alguns quilômetros de caminhada", diz. Mas entre tanto o suor e barro, havia também muita diversão, que, segundo ela, se resumia aos encontros na praça e às idas ao cinema, erguido em madeira.
"Era engraçado porque no final dos filmes, todo mundo saía com uma coceira danada nas pernas. Dava até para ver as pulgas. Já imaginou isso?", indaga, aos risos. Segundo Vanda, o cinema era um ponto de encontro, inclusive para fins políticos. "Autoridades como Dalton Paranaguá utilizavam o espaço para reuniões", recorda a aposentada, que foi uma das primeiras professoras da cidade.
Em Ibiporã, ela casou, teve quatro filhos e hoje tem 12 netos, 12 bisnetos e 4 tataranetos. "Nunca saí daqui porque é o lugar onde construí minha história. Ibiporã me dá orgulho por ser uma terra de trabalhadores e de gente acolhedora. As pessoas aqui têm muito sentimento humanitário, entende?", conclui.
Ao conhecer outro pioneiro, dá para entender um pouco dessa característica. Aos 79 anos, José Bonfim Ledo afirma que a cidade cresceu rápido pela luta de muitas famílias como a dele. Nascido na Bahia, ele chegou ao Norte do Paraná em 1942, com os pais e quatro irmãos.
Ele conta que as geadas estavam acabando com as plantações de café e a família foi obrigada a buscar outras formas de sobrevivência. "Como tinham muitos carroceiros que vinham de Jataizinho buscar barro para fazer cerâmica, eu e meus irmãos ficávamos na estrada vendendo bananas. Eles sempre estavam com fome e a gente conseguia uns trocados", revela Ledo, que vez ou outra vendia também pedaços de peroba-rosa.
Como a família não tinha muitos recursos, uma das diversões para Ledo era assistir a chegada dos bois na estação ferroviária, restaurada em 2012 e hoje integrada ao cenário urbano.
As lembranças de Vanda e José são alguns entre os 200 pioneiros entrevistados para o DVD "Contos e Causos". O secretário municipal de Cultura e Turismo, Julio Dutra diz que "a meta é contribuir com a história local, de forma que todos os que se depararem com os relatos, contos e causos, passem a enxergar os nossos pioneiros com mais valor", salienta. Todos os depoimentos dão vida a uma série de oito DVD Books, lançados neste aniversário.

Imagem ilustrativa da imagem Um passado vivo de memórias
| Foto: Fotos: Lis Sayuri
Vanda Davanzo Gnamm lembra que, apesar das dificuldades das décadas de 1940 e 1950, havia muita diversão, que se resumia aos encontros na praça e às idas ao cinema
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