Um paranaense é morto a cada três horas
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sábado, 17 de abril de 2010
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A cada três horas um paranaense morre vítima da violência que já corroeu como câncer as grandes cidades e agora avança sem dó contra os mais recônditos municípios do interior. Por dia, pelo menos oito famílias ficam orfãs de seus avós, tios, pais, mães e, principalmente, de seus filhos, desafortunadamente as vítimas mais frequentes da criminalidade. Esta será a herança que o próximo mandatário do poder estadual receberá do atual
governo.
Na década de 1990, a situação já era crítica. Polícias completamente desestruturadas e a corrupção enraizada nas corporações, homicídios em ritmo crescente, cadeias e prisões superlotadas. Medo entre os paranaenses. Nos anos 2000, o então candidato ao Palácio Iguaçu, Roberto Requião (PMDB), aproveitou o caos e engendrou a ideia de que seria a solução. Não só não o foi nos oitos anos de seu mandato como, ao se desvincular do cargo há poucos dias vai concorrer ao Senado , uma pesquisa de âmbito nacional que é realizada há uma década derrubou as últimas tentativas de abrandar a realidade.
O Mapa da Violência 2010 Anatomia dos Homicídios no Brasil foi produzido pelo Instituto Sangari e analisa o período 1997-2007. O trabalho identifica uma queda nos índices de homicídio no país mas no Paraná o movimento foi inverso. Os assassinatos aumentaram na década pesquisada e derrubaram o estado da 17ªpara a 7ªposição entre as 27 unidades da federação. A taxa de homicídio é de 31,3 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes (ou 3.112 mortos em números absolutos em 2007), três vezes maior que Santa Catarina, que tem a menor taxa do Brasil. Ao contrário do Sudeste e tal como no Nordeste, o sul mostra um expressivo aumento (62,9%) no número de homicídios, puxado pelo incremento de 96,2% do Paraná, comenta o autor do trabalho, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz. Entre as 500 cidades mais violentas do país, 58 são paranaenses.
O cenário também é aterrador entre os mais jovens: com 18 mortes para cada grupo de 100 pessoas entre 0 e 19 anos, o estado é o 6º no ranking. Outra fonte reforça a tendência. Pesquisa Nacional de Saúde Escolar do final do ano passado mostrou que em Curitiba, 9,2% dos estudantes ouvidos haviam se envolvido em brigas com arma de fogo nos 30 dias anteriores à pesquisa. O índice nacional foi de 4,2%.
Dados do próprio Governo Estadual confirmam o aumento da violência no Paraná nos últimos anos. Os crimes contra pessoas subiram de 81.800 em 2007 para 107.853 em 2008 e seguiram em alta no primeiro semestre do ano passado. Os furtos e roubos de veículos saltaram de 15.973 em 2007 para 17.775 no ano seguinte. Só os crimes contra o patrimônio tiveram leve queda: de 169.132 em 2007 para 165.879 em 2008.
Nas cadeias, a situação não é diferente. Segundo o advogado Dálio Zippin Filho, membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Paraná, nas penitenciárias haveria por volta de 16 mil presos e mais cerca de 20 mil nos distritos. O sistema carcerário sofre com falta de vagas e o prisional está caótico, observou. Nas delegacias, é de chorar ver aquele amontoado de gente, com temperatura de 50 graus e a disseminação de doenças, completou. Nos DPs, segundo ele, há adolescentes e mulheres na mesma carceragem que adultos. Nas prisões, nem as 12 unidades construídas amenizaram a situação na Penitenciária Estadual de Piraquara, onde grupos de presos se revezam no pátio por causa da falta de vagas. Para Zippin, a saída seria o retorno do Presídio do Ahú, desativado pelo Governo em 2008. Ele criticou ainda a falta da Defensoria Pública no Paraná, que existe nas constituições federal e estadual desde o final dos anos 1980 mas até hoje não funciona de fato.
Entre os policiais, mais reclamações. O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Londrina (Sindipol), Ademilson Antônio Alves Batista, disse que houve certo avanço em equipamentos mas que a atual gestão investiu muito pouco em material humano e qualificação. Com isso, o policial do Interior não consegue se aprimorar porque não tem como se ausentar. Por falta de efetivo, delegados e escrivães chegam a cuidar de até seis delegacias e investigadores têm escala de 24 por 24 horas, cuidando de cadeias com três, quatro vezes a capacidade. Em termos salariais, o Requião prometeu um plano de cargos e salários em 2005 que não foi cumprido. No final do mandato deu uma mensagem favorável, por causa da pressão que fizemos, concluiu Batista.


