UM OLHAR SOBRE A CIDADE
LUMINOSA LONDRINA
Arquivo folhaWalmor MacariniNa portaria do edifício onde moro ouço um senhor derramando elogios sobre Londrina. Percebo que é uma pessoa de elevado conhecimento, pela forma como se expressa. Diz que é do interior de São Paulo e que há pouco tempo mudou-se para cá.
‘‘As pessoas aqui são muito dadas, comunicam-se facilmente umas com as outras, puxam conversa, mesmo com estranhos como eu’’ – ele diz. ‘‘Não me perguntam quem sou nem de onde venho. De manhã, no elevador, já fazem cumprimentos, com um amável ‘‘bom dia’’. Na rua, peço uma informação e as pessoas respondem com amabilidade, e o fazem com prazer. Depois de um ano morando aqui, imagino que não existe preconceito entre ricos e pobres, ou pelo menos isto não é acentuado como em outras cidades que conheço. Gente bem vestida e mais culta fala conosco com a mesma simplicidade que os mais humildes. Estou no mercado, e alguém que está ao meu lado ensaia uma conversa: ‘‘Estão bonitas estas uvas’’. É natural, aqui, as pessoas buscarem aproximação com as outras. Eu e minha mulher e meus dois filhos não temos receio de nos aproximar de estranhos e conversar’’.
Arquivo folhaÉ natural, aqui, as pessoas buscarem aproximação com as outrasDiz que ele e a família já fizeram muitos amigos aqui, que os chamam pelo nome e os convidam para isto e aquilo. Vou lhe perguntando o que mais acha bom na cidade, e ele cita a arborização, o avançado sistema de telefonia, as ruas limpas, os táxis com numeração telefônica fácil de memorizar (como o 321-2121, o 324-2424, o 327-2727), os carros novos, os taxistas com telefone celular, uma facilidade a mais se o próprio passageiro a bordo precisar comunicar-se com alguém. Diz que, pela familiaridade já adquirida, usa com frequência o mesmo taxista, chamando o telefone do ponto ou o seu celular.
LONDRINA, PROVÍNCIA
OU METRÓPOLE?
Pergunto-lhe: Londrina é uma província ou uma metrópole? ‘‘Uma metrópole’’ - ele responde. E diz porque: ‘‘É grande a diversidade de cursos das duas universidades e elevado o nivel de ensino, tratando-se de uma cidade com apenas 65 anos. Aqui há boas lojas, bons hospitais, boas clínicas médicas e dentárias, cursos de tudo o que se quer, bons restaurantes, boas casas noturnas para o lazer dos jovens, boa infra-estrutura urbana, sem favelas nem bolsões de pobreza, os ônibus coletivos urbanos são novos, os automóveis também novos e limpos, vejo rampas para paraplégicos em toda parte – e isto é sinal de civilização e de respeito humano – as pessoas se vestem com simplicidade, mas bem, não se vê ninguém jogando detritos no chão. As mulheres são muito bonitas. Como existem mulheres bonitas nesta cidade!’’, ele exclama. E continua: ‘‘Converso com pessoas de diferentes camadas, e parece que todos viajam muito, inclusive para o exterior’’.
Arquivo folhaO céu é profundo é por isso a cidade tem muita luminosidadeQuando quem fala é uma pessoa de fora, ela nos alerta sobre coisas boas que temos e nem percebemos. Este senhor diz que encontrou facilidade para conhecer os clubes sociais da cidade, e que seus filhos já foram a muitos bailes e festas nesses lugares. ‘‘Isto não é assim em tantas cidades e capitais do porte de Londrina’’, ele observa. E credita tudo isto à ‘‘hospitalidade do londrinense’’.
Pergunta-me qual a razão deste jeito especial das pessoas daqui. Tento acertar imaginando que seja pela origem da própria população, oriunda de pontos diversos do Brasil e do mundo – paulistas, mineiros, nordestinos, sulistas; japoneses, italianos, árabes, espanhóis, alemães, portugueses. Certamente porque chegaram aqui todos pobres, socialmente iguais, imbuídos do mesmo anseio de trabalhar, ganhar dinheiro, construir uma nova vida, e assim unidos nessa cumplicidade implantaram aqui uma civilização com ideais idênticos, sem tradicionalismos discriminadores, e esta mentalidade certamente acabou passando de pais para filhos.
ONDE SE VAI HÁ
ALGUÉM NOS ABANANDO
De fato, se passarmos um olhar sobre a cidade, veremos que pessoas ricas são amigas de pessoas mais pobres; que colegas de banco escolar, de diferentes classes sociais, continuam amigos depois, sem os separatismos facilmente encontráveis em cidades mais antigas e tradicionais. Veremos que as pessoas aqui são muito hospitaleiras. Todos saem à noite, até por causa do calor. Vão aos bares e restaurantes, conversam muito, e isto as aproxima, até porque ao ar livre as pessoas tendem a ser mais libertas, mais comunicativas.
Arquivo folhaQuando algo se delineia já está a meio passo da concretizaçãoLondrina é muito acolhedora, e quem vem de fora diz que sente isto. Esta é uma das fortes expressões da cidade. Os londrinenses são amigos. Torcem para o Corinthians ou para o São Paulo ou para o Palmeiras, mas são harmônicos na diversidade. Na hora necessária todos se unem e torcem para o Londrina Esporte Clube, mesmo que o jogo seja contra alguns daqueles times de sua predileção. Muito interessante, a propósito, é que todos os londrinenses, quase sem exceção, torcem para times paulistanos, acreditando-se que não haja aqui um único torcedor de times de Curitiba, a não ser alguns pouquíssimos curitibanos que tenham se mudado para cá.
‘‘As pessoas chegam alegres, aos lugares, e onde se vai sempre tem alguém nos abanando a mão. Nos saúdam, mesmo que não nos conheçam. Em Londrina ninguém é individual, todos são coletivos...’’, é o que diz um senhora de Cuiabá, que se mudou para cá faz quatro anos. ‘‘As pessoas se abraçam, e os abraços são apertados, não abraços de obrigação mas de vontade. Isto gera uma corrente muito positiva, uma sinergia, um sentimento de unidade. Parece que há um piloto aceso nos corações das pessoas, e a chama está sempre ardente. Nunca se vê gente de mau humor por aqui. E o londrinense não fala mal da cidade, mas ao contrário, sempre a defende’’, afirma a mulher.
Arquivo folhaOnde se vai sempre tem alguém nos abanando a mãoO CÉU AQUI É
MAIS PROFUNDO
Todos cantam sua terra, mas o londrinense demonstra gostar muito desta cidade. O que se ouve é que Londrina não é grande nem pequena, que está na medida e que é uma cidade boa de se viver. Se o visitante a qualifica de metrópole, menciona sua infra-estrutura, que diz não ficar devendo muito aos grandes centros, com a vantagem de que não é uma cidade poluída – talvez até pela sua exuberante arborização.
Em Londrina há sol o ano inteiro e muita profundidade no céu, e por isso a cidade tem muita luminosidade. O céu da noite é também profundo, e quem conhece outras cidades do Brasil e do mundo sabe que esta é uma característica bem londrinense. Talvez seja pela pouca presença de nuvens e nevoeiros, pela pouca poluição. A esposa de um executivo japonês que prestou serviço aqui, durante dois anos, foi quem ‘‘descobriu’’ a profundidade do céu noturno e fez questão de dizer isto, em entrevista a este jornal, alertando que os londrinenses ainda não haviam reparado em tal magnitude e beleza...
Arquivo folhaLondrina figura entre as vinte maiores cidades brasileirasFoi talvez a miscigenação de raças e etnias que fez de Londrina a civilização que é – amável, aberta, comunicativa – e este é sem dúvida um rico patrimônio da cidade.
Aqui, quando as pessoas são apresentadas, não perguntam de que família você é, mas o que faz. Não valorizam muito heranças de nomes e tradições, mas o que a pessoa é e o que faz.
A cidade não tem cortiços, e mesmo bairros periféricos mais pobres já têm muita infra-estrutura. Funciona bem o serviço de transporte coletivo urbano, não obstante a superlotação nos momentos de pico. O trânsito, em certas horas, é caótico, mas se vê que o poder público vem realizando obras para melhoria do sistema de tráfego. Escasseia a sinalização, muitas ruas fora da área central não têm placas de identificação; as casas ocultam os números, de forma que é impossível vê-los à noite. Ainda há que rever a questão do estacionamento, que deveria ser pemitido em ambos os lados das ruas, e em todas as ruas, porque Londrina tem 140 mil veículos, dos quais mais de metade sempre em circulação no horário comercial, e naturalmente precisando estacionar em algum lugar. Usando linguagem metafórica, um certo filósofo das questões urbanas diz que o problema de tráfego em Londrina ‘‘não é de dinâmica, mas de estática’’. Quer dizer que não é de fluxo, mas de estacionamento.
BOA INFRA-ESTRUTURA
PARA AS FAMÍLIAS
Uma razão que atrai empresários de fora a instalarem aqui suas empresas é que Londrina dispõe de boa infra-estrutura para as famílias, porque todo executivo que chega busca também o bem-estar para esposas e filhos e não sómente o nosso céu azul profundo... E essa infra-estrutura compreende um aeroporto próximo do centro e vôos frequentes, diretos ou com conexão, para todos os lugares. Há boas universidades, estando a Universidade Estadual de Londrina entre as três melhores do Brasil. E a Unopar, particular e mais recente, não quer ficar atrás. O denominado teleporto – o que há de mais avançado no campo das comunicações e que colocará Londrina ainda mais na dianteira, nessa área – está sendo implantado junto à Unopar.
São bons, aqui, os serviços médicos e de saúde, não obstante os atendimentos nessa área serem ainda tão precários no Brasil. Temos aqui alguns destacados cirurgiões, de projeção nacional, e isto cria conceito e proporciona segurança à população e a quem deseje mudar-se para cá.
Cursos, aqui existem quase todos, notadamente os de línguas estrangeiras, tão requisitados nestes tempos de globalização.
Londrina destaca-se pela promoção anual de dois destacados eventos culturais, que são o Festival Internacional de Teatro e o Festival Internacional de Música. No correr do ano pontificam, aqui e acolá, outros bons espetáculos, para todos os gostos, embora não ainda com a intensidade que se desejaria.
Falta à cidade um grande Centro de Convenções e Eventos, com todos os requisitos modernos que uma tal instituição exige, mas isto já está na mente coletiva e, como tal, a caminho da realização. Um teatro de maior envergadura, com salas de apoio e de ensino de todas as artes, é outro anseio, e se é anseio, já se cristalizou como possibilidade. Daí à concretização será um passo.
LONDRINA ENTRE
AS 20 MAIORES
Com o advento dos shoppings centers e dos hipermercados, relativamente recentes nesta cidade de apenas 65 anos, modificou-se o perfil do comércio e modificaram-se os hábitos do consumidor. Todas os produtos das grifes passaram a ser encontráveis, tornando-se populares e conhecidos, ao tempo em que desapareceu o comércio especulativo dessas marcas. As lojas, em todos os pontos da cidade, passaram a seguir padrões mais sofisticados, espelhados nos shoppings, modificando conceitos e sistemas, sem possibilidade de retorno ao que era. E o consumidor não deixaria por menos, porque, pela amostragem do melhor, não aceita o ruim nem o mais ou menos.
Num universo das 5 mil cidades brasileiras sedes de municípios, Londrina figura entre as 20 maiores. Não será necessário fazer muito esforço para constatar isto. Bastará contar pelos dedos das mãos: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Santos, Campinas, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Goiânia, Brasília, Campo Grande, Cuiabá, Manaus, Salvador, Recife, Fortaleza, Londrina. É maior que a maioria das capitais. Esse ranking é muito expressivo, significando que em qualquer projeto nacional que vise contemplar as 20 grandes, Londrina tem obrigatóriamente que figurar.
E O FUTURO
DE LONDRINA?
Londrina é um enorme pólo regional, com uma população agregada que representa quase 2 milhões de pessoas, considerando o grande número de cidades que a circundam e sobre as quais tem influência. Portanto, a mesma população da Grande Curitiba, talvez com a vantagem de que o público consumidor desta região tem, em escala, maior poder aquisitivo que o da capital e seus satélites. Os indicadores econômicos de Curitiba são, naturalmente, mais expressivos, por ser a capital administrativa, portanto sede do governo, que é o grande concentrador e manipulador dos recursos financeiros do Estado.
Londrina tem se destacado pela sua independência da capital. Grandes empreendimentos que aqui se implantaram não contaram com benesses do governo, portanto sem incentivos nem protecionismos. Nos tempos áureos do café ocorria exatamente o contrário: o Norte era o grande pólo econômico do Paraná, tendo Londrina como centro, e a cidade-sede do governo servia-se disto. Curitiba deu seu grande salto bafejada pelos bons ventos que sopravam do Norte. Levando o dinheiro, naturalmente...
E A LONDRINA
DO FUTURO?
Qual é a tendência de Londrina, para o futuro? A cidade já se consolidou como detentora de um jornal de vanguarda, a ‘‘Folha de Londrina’’, com circulação estadual desde a sua implantação há 50 anos e desdobrando-se agora com o título de ‘‘Folha do Paranᒒ nas regiões fora do eixo de sua cidade-sede.
Sem prejuízo da economia regional, Londrina ficará cada vez maior, pelo fato de já ser um pólo irradiador de serviços e de influência, ademais um centro de poder político que tenderá a expandir-se. A cidade, fisicamente, não tem deixado de crescer, em todos os campos: indústria, comércio, serviços. E cresce também em seu perfil urbano. Construções, grandes e médias, vão despontando todos os dias, no centro e na perferia, sempre com coisas novas aparecendo. A cidade consolida-se como avançado centro nacional em tecnologia das comunicações. Expande seus espaços comerciais, como os recém-inaugurados Shopping Royal Plaza e o Londrina Shopping Center, e o Outlet Shopping prestes a ser inaugurado – além de outros, como o Com-Tour. Uma ampliação do aeroporto e da estação aeroviária está programada, para começar no início do próximo ano, embora o futuro de Londrina será abrigar um gigante aeroporto internacional, e o projeto já está na prancheta. Sua localização será a região do distrito de São Luiz.
Em Londrina, quando algo se delineia, já está a meio passo da concretização. Não fosse historicamente assim e a cidade que hoje é não teria sido edificada em apenas 65 anos.
A Londrina do futuro se consolidará como centro universitário, porque quando uma cidade alcança um estágio como este a que chegou não há caminho de volta, eis que o próprio desenvolvimento se atropelará a si próprio. Os piores foram os primeiros 50 anos... e se eles não tivessem dado certo, aí então... Mas eles deram certo. Agora é só soltar as rédeas.
HÁ NO AR UM CLIMA
DE NEO-PIONEIRISMO
A Londrina do futuro não será de muitas fábricas, mas de serviços, e se podemos fazer alguma profecia para os próximos 50 anos é só imaginar que a região desde Apucarana a Cornélio Procópio – passando por Londrina – será um só bloco urbano. A região oeste de Londrina – que começa atrás do Shopping Catuaí e vaí até o distrito de São Luiz – tem vocação para abrigar estâncias hoteleiras, centros de convenções e de lazer, restaurantes com aprazíveis instalações, condomínios fechados, clubes sociais, pequenos lagos e muitos parques e áreas reflorestadas. Nessa região o poder público não permitirá a implantação de loteamentos e condomínios populares, preservando o local para projetos mais ousados, que ademais proporcionarão empregos para todas as classes sociais.
Não há dúvida de que paira no ar, em Londrina, um clima de neo-pioneirismo, algo como uma redescoberta da cidade e uma acorrida de novos desbravadores, como nos tempos da colonização.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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