No final de 2003, o escritor Airo Zamoner impôs a si mesmo a seguinte tarefa: escolher dez cenários de Curitiba e ambientar em cada um deles um conto. O resultado está no livro Contos de Curitiba, publicado pela editora Protexto em 2005.

Para dar cabo dessa missão, Airo, que é catarinense de nascimento e londrinense de criação, realizou uma jornada não apenas aos lugares escolhidos, mas também à essência das pessoas que encontrava pelo caminho. Usando os olhos de escritor, ele consegue ver além da caótica rotina urbana e se deixa surpreender novamente pela cidade que o acolheu. O resultado é uma bela obra, que têm o poder de levar seus leitores até uma cidade oculta na própria cidade, que, muitas vezes, precisa ser desvendada para apresentar suas muitas riquezas.

Em sua casa, no bucólico município de Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba, ele concedeu a seguinte entrevista à FOLHA DE LONDRINA:

Folha de Londrina - Como foi o trabalho de elaboração desse livro?
Airo Zamoner - Foi uma coisa muito gostosa, um dos livros mais prazeirosos que eu fiz. Curitiba tem uma riqueza muito grande para você ambientar contos, ficções. Eu resolvi propor para a Siemens e para a Fundação Cultural de Curitiba esta idéia de escolher dez bons equipamentos da cidade e ambientar dentro desses locais uma ficção, um conto, para cada um deles. O trabalho foi gostoso porque eu tive que andar pela cidade, reconhecer Curitiba novamente. Tem certos lugares que a gente visita uma vez e anos se passam sem que você volte pra lá. Eu visitei praticamente todos os recantos de Curitiba que tem algum reflexo, alguma importância para a cidade, tanto no aspecto turístico quanto cultural. A primeira fase foi andar por Curitiba, ver o que ela tem de bonito, de interessante, e, principalmente, com o olho de escritor.

Folha - E como foi essa Curitiba que o senhor encontrou. Ela lhe surpreendeu?
Airo - Em alguns aspectos sim. No dia-a-dia a gente passa batido, você está com a mente e o coração voltados para aquela rotina doida de todos nós e acaba não vendo muitas coisas. Eu tive que ir, parar e olhar, então me surpreendi com algumas coisas, principalmente com as pessoas. Por exemplo, no chamado Parque Bacacheri, um lugar que pouca gente conhece, encontrei um personagem, era um artista que estava lá enfiado em uma lanchonete num parque pouco visitado, um fotógrafo excelente. Ele ficou muito feliz com a minha idéia de ambientar um conto ali. Surpresas desse tipo foram muito gratificantes. No Bosque Alemão, por exemplo, há lá uma biblioteca no alto. E uma das responsáveis pelo lugar, uma moça, é uma entusiasta da leitura que você não encontra tão facilmente. Esse tipo de surpresa, principalmente com as pessoas, é uma coisa muito legal. Agora, com a cidade em si, tive algumas surpresas com coisas que poderiam estar mais bem cuidadas.

Folha - E Curitiba rende? É um lugar bom para se ambientar contos?
Airo - É só ter o olho. O que acontece com o escritor paranaense é que ele é auto-depreciativo. Parece que ele não gosta dele mesmo, tenta esconder de onde é. Talvez eu até faça alguma injustiça, e aproveito para homenagear aqui o Domingos Pellegrini, que é de Londrimna e tem orgulho da terra, escreve coisas maravilhosas ambientadas lá, mas de um modo geral o paranaense tem uma certa veneração pelos grandes eixos da literatura brasileira, São Paulo, Rio, um pouco de Minas, e esconde um pouco a cidade. Mas sem dúvida, Curitiba tem motivos para mil histórias, das mais interessantes possíveis.

Folha - Tanto tragédias como histórias de amor?
Airo - Tudo. Se parar em algum lugar e ficar olhando as pessoas você verá coisas incríveis. Além de olhar os locais, perdi tempo olhando pessoas, analisando seu comportamento. De longe olhar os dramas pessoais, enxergar as pessoas tentando trazer para a harmonia aquilo que é desarmônico pela natureza do homem. É difícil de você conciliar seus egoísmos, suas necessidades, suas vontades com as do outro, isso é uma coisa dramática. Eu acho que Curitiba, como qualquer cidade do Brasil, tem um povo que fornece motivos de sobra para a ficção, pra poesia, pro ensaio, pra crônica.

Folha - Como começou sua relação com a palavra escrita?
Airo - Ultrapassada aquela fase de alfabetização, a primeira coisa que me fascinou foram as bibliotecas. Era uma coisa muito legal, a gente ia para a biblioteca e a professora dizia ''escolham qualquer coisa'', não tinha uma orientação, um direcionamento. Era uma coisa maravilhosa pegar aqueles livros e abrir, parecia que os personagens pulavam para fora.

Folha - Quando você decidiu ser escritor?
Airo - É difícil dizer exatamente o ponto. A gente escrevia naturalmente, por uma vontade, um ímpeto. É uma coisa que está dentro e precisa sair. Ela vai acumulando, uma hora você precisa despejar. A gente passa por uma fase de ensaios, onde escreve tudo, poesia, crônica, coisa alguma, palavras soltas, e aquilo aos poucos vai adquirindo um pouco de técnica. Agora, o livro foi o primeiro coroamento. Primeiro tive o jornal, quando você vê pela primeira vez a tua criação literária impressa é uma emoção muito grande. Depois o livro, aquela consagração, que só veio acontecer em 78. Dali pra frente são já vinte e poucos livros.

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