Um olhar cultural vindo de fora
Michele Muller
Eles são carismáticos. Atenciosos. Quase tão preocupados com a vida alheia quanto moradores de cidades do interior. E são curitibanos, os personagens que protagonizam muitos dos contos da escritora Margarita Wasserman. Parte das histórias de seus cinco livros editados são lembranças reais de uma época em que os habitantes de Curitiba não tinham características que, segundo a autora, pudessem discordar da hospitalidade brasileira.
Nascida no Uruguai, Wasserman mudou-se para Brasil no colo da mãe. É o povo da cidade de sua infância que ela decidiu, aos 65 anos, retratar nos livros. Curitiba mudou muito, e o curitibano também. Quando eu era criança, as pessoas visitavam-se sem precisar avisar antes, descreve.
É com o mesmo saudosismo que o radialista José Wille, de Paranavaí (PR), lembra da cidade que adotou aos 15 anos, na década de 70. Eu me impressionei com a educação e a organização do curitibano. As pessoas agradeciam, ao motorista ao descer do ônibus, conta. O crescimento rápido de Curitiba, que pode ter abalado a cordialidade do povo, não abalou, no entanto, a característica que tanto Ville quanto Wasserman consideram uma das mais marcantes de quem vive na capital do Paraná: o orgulho de ser curitibano.
O escritor Wilson Bueno, nascido no interior do Estado, diz que sempre se sentiu muito amado pelo curitibano. Mas discorda que o povo valoriza as criações que nascem em Curitiba. Passei a ser melhor recebido depois que fui procurado por grandes editoras brasileiras. O curitibano precisa de um aval para ter sua qualidade garantida.
O escritor e professor Décio Pignatari, que há quase dois anos mudou-se com a família para Curitiba, chama a atenção para o conservadorismo curitibano. A maneira conservadora não descreveria apenas o estilo de vida, mas também a produção artística. Até um certo ponto, Curitiba se abriu para a área da cultura. Mas é preciso dar um novo salto para se tornar nacional, e depois internacional. A cidade não pode perder a oportunidade que Belo Horizonte, por estar próxima ao Rio, perdeu: de se tornar um grande pólo cultural. Eles ficaram condenados a falar de coisas mineiras. Espero que Curitiba não fique condenada a falar de coisas curitibanas. Para isso, as elites precisam incentivar a inovação artística; têm que correr o risco de apoiar coisas novas.





