Um mundo que ninguém vê
No dia 21 de fevereiro de 2008 não choveu em Curitiba. Por volta das 13 horas, muito gente se surpreendeu ao se deparar com a Avenida Visconde de Guarapuava fechada. "O trânsito de Curitiba está cada vez pior", pensaram alguns. "Um acidente horrível aí na frente", passou pela cabeça de outros. Enquanto a imaginação das pessoas agia, Luci Machado Santana, com 26 anos na época, era resgatada de dentro de um bueiro. A mulher havia passado mais de cinco horas vagando por mais de dois quilômetros de galerias pluviais no subterrâneo de Curitiba.
Luci entrou em uma grande abertura, de cerca de dois metros, que existe na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico. Relatou que estava fugindo de traficantes. O que passou debaixo da terra, só ela e Deus sabem. Pode-se, no entanto, afirmar: não deve ter sido nada fácil. Na primeira parte do trajeto, Luci deve ter conseguido enxergar alguma coisa, pois a luz do sol ainda penetra pela entrada da galeria. A medida em que se vai andando - sempre com a água correndo entre as pernas - só a imensa escuridão vai crescendo à frente. Mesmo que os olhos se acostumem, chega um momento que em a luz é só uma lembrança e a treva se faz. A sensação é a mesma que entrar em uma caverna, mas sabendo que a cidade está ali em cima, a poucos metros da cabeça.
A mulher só conseguiu sair viva na Visconde de Guarapuava por um motivo: no dia 21 de fevereiro do ano passado fez sol na Capital mais fria do País. Caso a chuva tivesse caído em Curitiba, provavelmente Luci teria morrido afogada e seu corpo talvez nunca fosse encontrado. Na sua caminhada, deve ter escorregado e caído várias vezes, pois o terreno é irregular, com pedras e restos de cimento; em outros pontos, a lama misturada com lixo faz com que os pés afundem. Como a maioria das pessoas, Luci deve ter sentido asco da água em que pisava - pois, apesar de não ser esgoto, o cheiro é forte. E fica pior a medida em que se permanece dentro da galeria. Causa vertigem.
Não deveria ser assim. A água que corre em galerias pluviais deveria ser mais limpa do que é. A população contribui com a poluição jogando lixo nos rios, nas ruas, nos bueiros. De uma forma ou outra, tudo acaba sendo despejado nas águas que correm para os rios. "Objetos como sofás, geladeiras e fogão são comuns", diz Djalma Mendes do Santos, gerente da Bacia do rio Belém da Secretaria Municipal de Obras da Prefeitura de Curitiba, órgão que administra as galerias pluviais.
Existem ainda as ligações ilegais entre as redes de água e esgoto, o que acaba prejudicando os dois. "Se não houvesse o lixo, o aspecto das galerias pluviais seria bem diferente. Até a questão do cheiro", diz o engenheiro civil e sanitarista Almir Bonatto,
do Departamento de Pontes e Drenagens da Secretaria de Obras. O cheiro da água não é o único problema. A poluição leva ao entupimento das galerias e, consequentemente, a enchente de muitos pontos de Curitiba.
O ponto em que a mulher que parou a Visconde de Guarapuava entrou é justamente onde o rio Belém, que corta Curitiba, passa por baixo de ruas, avenidas, prédios, pessoas e carros. A nascente do rio fica quase na divisa com o município de Colombo. O rio corre aberto até o Centro Cívico, corta todo o Centro da cidade dentro das chamadas galerias celulares (caixas de concreto de cerca de dois metros), e volta a ficar a céu aberto na região da Rodoferroviária. Por fim, deságua no rio Iguaçu. Curitiba ainda é cortada pelos rios Atuba e Barigui.
Além das galerias celulares principais, existem milhares de outras galerias secundárias que abrigam a água que cai em bueiros ou bocas-de-lobo, na linguagem popular, ou caixa de captação, como é denominada em termos técnicos. Na prefeitura de Curitiba, não há um levantamento de quantos quilômetros de galerias pluviais existem debaixo da terra, nem qual o volume de água que corre nos túneis. Os engenheiros afirmam, porém, que geralmente as galerias seguem o mesmo caminho das ruas.
Já a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que administra o recolhimento e tratamento do material que escoa na rede de esgoto, informa que, até fevereiro deste ano, exatamente 5.491 quilômetros de tubos passavam por baixo de Curitiba. Se colocados em linha reta, representam uma viagem da Capital paranaense até Salvador, na Bahia. Desses mais de cinco mil quilômetros, 455 deles são tubos de grandes dimensões (chamados de coletores troncos e emissários), ou seja, permitem que pessoas caminhem por debaixo de Curitiba por quase 500 quilômetros.
A tubulação recolheu, também em fevereiro, um total 6.954.867 metros cúbicos de esgoto. A média do volume coletado nos últimos 12 meses é 6.886.183 metros cúbicos. São quase sete bilhões de litros de esgoto recolhidos por mês, em média, em Curitiba. Hoje, 85% do esgoto da cidade é recolhido.
O sistema que recolhe o esgoto é separado do que recolhe a água da chuva, ao contrário do que muitos imaginam. Nas galerias do esgoto, é quase impossível - e não recomendável - entrar, devido ao mau cheiro, a ameaça de contrair doenças, e até mesmo pelo risco de morte, devido a quantidade de gases tóxicos que são liberados dentro dos coletores. Hoje, a manutenção é feita por caminhões e jatos de água. Para entrar, só com muita proteção, como máscaras e botas. "Mesmo protegido, já vi muito companheiro pegar micose. Eu não peguei!", ri Élsio Selbmann, agente técnico administrativo, que há 21 anos trabalha na Sanepar. Ele já entrou algumas vezes na rede de esgoto, hoje não mais.
Nessa vida toda dedicada ao que se passa nos subterrâneos de Curitiba, Selbmann diz já ter visto muita coisa estranha correndo em meio ao esgoto. Animais mortos, como cachorros e gatos, são comuns. Ele conta, no entanto, que o maior momento de tristeza no trabalho foi quando viu, pela primeira vez, um feto boaindo na água. A prática ilegal não chega a ser comum, mas também não é uma raridade.
"As pessoas nunca imaginam o que se passa ai embaixo", diz ele. A confidência de Selbmann o leva a uma reflexão. Sobre o que se passa no submundo (literalmente) de Curitiba, ele medita: "Lá embaixo é um mundo que ninguém vê". (T.A.)
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