As cartas que chegavam da capital, no começo da década de 90, foram a ‘‘provocação’’. Nelas, o pai, que havia mudado de Paranavaí, contava como estavam as coisas, narrava a saudade. Aos cinco anos de idade, restava ao garoto escutar a leitura feita pela vizinha, já que a mãe também não sabia ler. A curiosidade foi então mais um estímulo que o levou a apressar o aprendizado, principalmente com os livros que encontrava pela casa.
  Lá se vão mais de 10 anos, mas a paixão que nasceu ali dura até hoje. E é movida por ela que o estudante Silvio Honorato Bernardo, de 22 anos, caminha entre os corredores da Bibilioteca Pública do Paraná (BPP), encontrando em cada livro a possibilidade de mergulhar num vasto mundo de idéias e novidades. ‘‘É minha grande diversão, chego a ler mais de 20 livros por mês. Às vezes pego dois ao mesmo tempo e leio um pouco de cada’’, conta. Entre os preferidos estão publicações de ação e aventura, como ‘‘Cães de Guerra’’, do escritor inglês Frederick Forsyth. ‘‘Gostei bastante da narrativa dele, é um texto empolgante.’’
  Assim como Bernardo, cerca de 3 mil pessoas passam, diariamente, pelo prédio da BPP. Os números contabilizam 135 mil livros emprestados desde janeiro deste ano. Entre os títulos mais procurados estão ‘‘O Código da Vinci’’, de Dan Brown, ‘‘As Valkírias’’, de Paulo Coelho, e ‘‘Nada Dura Para Sempre’’, de Sidney Sheldon – este, aliás, o escolhido para o empréstimo quinzenal da professora Hayde Machado de Oliveira, de 76 anos, freqüentadora assídua da biblioteca desde 1978. ‘‘Já ouvi falar da história e me interessei’’, conta a fã de histórias antigas, policiais e romances. ‘‘Adquiri este hábito do meu pai, ainda quando pequena, e conservo esse amor que ele sentia pela leitura.’’
  Em meio ao vai-e-vem há também quem esteja vivendo a alegria de descobrir o lugar pela primeira vez. Christian Nascimento Veloso, de 10 anos, chegou acompanhado de colegas do Instituto de Educação do Paraná. Juntos, participam de um Grupo de Literatura ligado ao projeto Sala de Recursos, orientado pelas professoras Iderle Monteiro de Araújo, Silvana Motta e Jane Sprenger. O trabalho busca colocar as crianças em contato com a leitura, estimulando as habilidades de cada um. E já rendeu até a produção de um livro, chamado ‘‘Contos Pra Não Dormir’’. A obra reúne contos de vários alunos sobre histórias de fantasmas que haveria no colégio. Apesar da experiência como co-autor de um livro, Christian ainda não conhecia a Biblioteca Pública. E a visita foi tão especial que fez um escritor ficar sem palavras. ‘‘É difícil explicar. Eu tinha muita vontade conhecer mas não tinha tido oportunidade. Adorei tudo e agora a idéia é voltar quantas vezes eu puder.’’
  ‘‘Proporcionar este contato aos alunos é maravilhoso’’, resume a professora Iderle, defendendo que todas as escolas desenvolvam projetos semelhantes. ‘‘Você amplia as perspectivas dos alunos, que desenvolvem suas habilidades e a criatividade.’’
  Além da Biblioteca Pública do Paraná, os amantes da boa leitura têm à disposição outras 45 bibliotecas dos Faróis do Saber, espalhadas por toda a cidade. A soma do acervo de livros nesses locais é de 315 mil exemplares, que geram uma freqüencia de 300 mil usuários por mês. A média de livros retirados para empréstimos nas bibliotecas da Prefeitura é de 130 mil exemplares. Alguns desses já foram lidos pelo estudante Renato Machado, de 16 anos, que estuda em uma escola ao lado do Farol do Saber do bairro Xaxim. ‘‘Gosto de livros de terror e também das revistas.’’
  Para a estudante Isabela Silva, de 15 anos, a grande variedade de livros, bem perto de casa, é um atração extra. ‘‘Você não precisa andar muito, pode passar a tarde inteira aqui, estudando. Essas facilidades aproximam.’’
  Quem aprova esse interesse é a mãe de Isabela, Fátima Silva, de 53 anos. Não só aprova como aproveita para acompanhar a filha e também desfrutar do acervo. ‘‘Gosto de Cecilia Meireles e aqui encontrei vários livros dela. Então é bom para mim porque dá essa oportunidade e bom para ela, que pode estudar com mais profundidade sem a gente gastar, porque livro é muito caro hoje no Brasil’’, avalia.

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