O trânsito no Centro de Curitiba pára no fim da tarde da segunda-feira. Não é preciso algum motivo especial. Para quem sai do trabalho, o fato é mais um capítulo da novela diária que tem como enredo as dezenas de ruas congestionadas. Os coadjuvantes são as luzes dos sinaleiros, que ao longe vão mudando de cor sem que o carro ande um metro sequer. E no papel principal estão os motoristas, claro, estressados. ''Tem ruas que eu nem arrisco mais. Marechal Floriano, Brigadeiro Franco, Sete de Setembro, no fim da tarde, nem pensar'', conta o autônomo José Gonçalves. ''Está cada vez mais complicado'', reclama o motorista Mário Utizuki.
A partir de julho essa ''novela'' pode ganhar mais um capítulo: a cidade está prestes a completar um milhão de carros registrados - o que significa um veículo para cada 1,77 habitante. O número surpreende e coloca Curitiba como a líder entre as capitais brasileiras. São Paulo, por exemplo, tem um carro para cada 2,15 habitantes. Em Brasília a estatística mostra 2,32 e no Rio de Janeiro 3,64.
Especialistas afirmam que apesar da marca histórica, a quantidade real de carros pode ser menor, já que muitos são registrados aqui mas rodam em outros estados - uma consequencia do valor mais baixo do IPVA. Mas independente do número oficial, a quantidade é bastante grande. ''Não está cabendo mais tanto carro em Curitiba'', constata o médico Valdir Lippi Jr.
''É muito carro para qualquer lugar'', afirma a coordenadora do Núcleo de Psicologia do Trânsito da UFPR, Iara Thielen. Segundo ela, o inchaço do transporte coletivo é um dos fatores que agravam a situação. ''Ninguém quer andar espremido, ficar esperando horas em um ponto de ônibus'', avalia.
Para o advogado especialista em trânsito, Marcelo Araújo, paralelamente a esses problemas surge a facilidade de comprar um carro. ''Hoje você financia em 60 vezes, tem taxas de juros acessíveis. Aí a pessoa opta por uma moto ou carro barato, que traz mais conforto para ela'', argumenta.
De acordo com a ambientalista Laura Jesus de Moura, o excesso de carros traz consequências em três campos. ''Primeiro você polui o ar, com gás carbônico. Depois entramos na questão do uso do solo, já que mais carros demandam mais espaço, mais ruas. E o terceiro é o crescimento do ruído e tensão e estresse dos motoristas, que aumentam em congestionamentos'', analisa.
Iara alerta que é preciso se pensar mais no tema. ''Podemos chegar a um ponto insustentável. Como você vai convencer uma pessoa que comprou seu carro a deixar esse conforto de lado?'', questiona. ''No futuro, será preciso uma mudança cultural, um compromisso das pessoas, já que é difícil se adaptar sem utilizar os carros'', prevê Laura.
De um lado, a preocupação com o meio ambiente. Do outro, a falta de espaço para tanto carro. No meio, uma equipe que precisa quebrar a cabeça em busca de soluções para tantas cobranças. ''É uma equação difícil'', admite a gerente de Engenharia de Trânsito da Diretran, Rosângela Battistella. Segundo ela, o trabalho desenvolvido contempla ações a curto, médio e longo prazo. ''Carro é um sonho de consumo do cidadão e você não pode proibi-lo de comprar um. Mas acredito que vai chegar a um determinado ponto que medidas drásticas serão necessárias para diminuir a quantidade de automóveis nas ruas, como o pedágio urbano'', prevê.
De acordo com Rosângela, obras como os binários e ampliação das faixas de rolamento também são importantes. ''Não podemos fechar os olhos para esses problemas e essas obras vêm nesse sentido'', explica.
Dentro do planejamento, a diretora afirma que estão também o aumento da frota de ônibus e ampliação e reforma dos terminais, que ganhariam estacionamentos. ''Com isso será possivel a pessoa se deslocar até o terminal, deixar o carro lá e seguir para outros pontos utilizando o transporte coletivo'', avalia.
Necessidades urgentes, na opinião da turismóloga Margarete Fucknir. ''A frota aumentou sem ter estrutura na cidade, por isso você perde muito tempo no trânsito, fica estressada. É preciso rever a questão do tráfego, planejar o futuro. Eu trocaria o carro pelo ônibus, mas no Pilarzinho, onde moro, não tem terminal. Por isso é preciso investir'', argumenta.

mockup