UM LUXO SÓ! Mercado se expande e vai até muito além do glamour
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domingo, 21 de outubro de 2007
Karla Matida<br>Reportagem Local 
O consultor Carlos Ferreirinha não tem sobrenome ''quatrocentão'' e nasceu em São Gonçalo, bem longe da alta sociedade paulista e carioca. Mesmo assim, quando se fala em luxo no Brasil, ele é a maior referência. Não por acaso, viaja pelo País dando palestras e cursos sobre o luxo e suas particularidades. Fala para grupos heterogêneos, de empresários poderosos a jovens estudantes. Também ajudou a implantar o curso MBA em gestão de luxo, de dois anos, da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap) em São Paulo. Em setembro, Ferreirinha passou por Londrina e Curitiba.
Na Capital, a agenda do consultor marcava um curso de imersão de três dias, com cerca de 11 horas de aulas diárias. ''É muito intenso e com muita trocas de experiências, por isso não é indicado para estudantes. É preciso ter mais bagagem'', contou Ferreirinha em sua visita à cidade, a convite do Instituto Real.
Ter ou não ter?
Para a platéia atenta às suas informações, o consultor disparou uma frase de William Shakespeare. ''Precisamos de pequenos excessos para sobreviver'', escreveu o autor de Romeu & Julieta. A frase pode até servir de mantra para quem está sempre de olho em um ou outro objeto do desejo.
''Nenhum consumo traz felicidade'', avisa Ferreirinha, ''mas concretiza desejos'', completa. Nas duas últimas décadas, o consultor fluminense esteve ligado ao segmento do luxo. Há cerca de sete anos fundou a MCF Consultoria e é um tempo que já pode ser considerado como um divisor de águas. ''Antes, o luxo era encarado com muito ceticismo, hoje já está na pauta de negócios'', garante. ''É uma ferramenta de gestão econômica''.
A mudança também aconteceu no jeito de perceber o luxo. ''Antes tinha mais a percepção de moda'', explica. As diferenças estão no próprio portfólio do consultor. ''Agora, são poucos nomes de moda'', conta Ferreirinha, que tem as contas das grifes Diesel e Stella MacCartney.
Antes de ter a própria consultoria, Ferreirinha foi presidente do grupo Louis Vuitton no Brasil. Durante cerca de sete anos esteve à frente da badalada grife francesa, um dos grandes sinônimos de luxo mundial. A marca faz parte de um dos grupos de luxo mais fortes do planeta, a LVMH, que detém 42% de todo o champanhe consumido no globo. Mas a corporação, que mudou o estilo dos negócios do luxo, ainda é recente e tem cerca de 30 anos. ''O luxo sempre existiu, mas antes era visto como supérfluo e ostentação. O mundo agora tem uma visão diferenciada'', diz Ferreirinha.
Educação X Confrontação
É um exercício novo, o do luxo, e ainda demanda um tempo para amadurecer. O público deve ser educado e não confrontado'', ensina o consultor. Ele acredita que o Brasil ainda precise de uns 10, 15 anos pela frente. Há muito a ser desenvolvido. O México tem mais marcas do que aqui'', conta. ''Por mais brasilista que eu seja, que brigue pelo País, sei que não tem condições. Não basta só São Paulo'', relata.
De acordo com o consultor ''todo mundo em todos os lugares quer aprender com o segmento do luxo'', diz. Ele cita o caso das Havaianas, que ''aprendeu a fazer o dever de casa e usa a ferramenta do luxo'', completa. Tanto que se, antes, um par dos conhecidos chinelos de dedo podia ser comprado por R$ 3, hoje o valor pode chegar aos US$ 280 no Japão, preço pago por um modelo com cristal austríaco. No exemplo paranaense, Ferreirinha lembra do Boticário, que tem preço médio de vendas de perfumes de R$ 40 e, recentemente, lançou o Lily Essence por cerca de R$ 170. ''Essas marcas estão reeducando sua base de clientes'', afirma.
O consultor lembra que das 100 marcas mais poderosas do planeta, cerca de 20% fazem parte do segmento de luxo. ''Ao contrário de marcas como IBM e Microsoft (tecnologia), o que Gucci, Prada, Rolex, Harley-Davidson, Tiffany... criaram que a gente não pode viver sem?'', questiona Ferreirinha. E é justamente essa pergunta que responde o que é o luxo.


