Zelita Cardoso, Ilka Borges, Cecília Andrade, Judith Carneiro e Norma da Silva, todas com idade entre 40 e 53 anos, foram as primeiras moradoras do Pequeno Cotolengo. A instituição, que completou 44 anos, começou atendendo uma turma de 35 meninas com deficiências intelectual e física abandonadas pela família em abrigos de Curitiba. Na época, a turminha tinha, em média, 10 anos e foi encaminhada pelo antigo Lar das Meninas, nas Mercês. Hoje, já senhorinhas, elas nunca tiveram contato com suas famílias, não sabem quem são os pais ou irmãos. Passaram a vida inteira dentro do abrigo.
Foram completamente esquecidas pelos parentes, assim como os demais moradores. Suas referências são os outros moradores, funcionários e voluntários do Pequeno Cotolengo. "A realidade delas é feliz porque, pelo menos, aqui recebem atendimento especial de médicos, professores e cuidadoras, participam de atividades e tem a oportunidade de interação social. Por outro lado, é triste ver que foram rejeitadas. A família delas nunca vieram aqui, nem ao menos, visitá-las. Faltou compromisso, faltou sensibilidade, carinho e afeto dos parentes", disse a coordenadora técnica da instituição, Marley Takarski, que está no Pequeno Cotolengo há 22 anos.
"Apenas 3% dos moradores recebem visitas das famílias", lamenta a coordenadora técnica. Os tios dela, Antonio e Maria Tokarski, doaram as terras onde fica a instituição, uma área de 126 mil metros quadrados, dos quais 10 mil são de área construída. Lá moram 230 pessoas especiais e orfãs, entre crianças - são 80, entre elas um bebê - e adultos, portadores de deficiências múltiplas (física, intelectual e visual). Cerca de 60% são cadeirantes. Os moradores vivem em cinco prédios e sete casas-lares, sendo nestas últimas, acompanhados de uma mãe social para resgatar o convívio familiar.
Um batalhão ainda maior de funcionários trabalham dentro do Pequeno Cotolengo. Cerca de 300 profissionais prestam atendimento aos moradores: médicos, dentistas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogas, psiquiatra, enfermeiros, farmacêuticos, professores, pedagoga, assistente social, nutricionistas, cozinheiras, zeladores, arrumadeiras e administradores. Fora 500 voluntários que se dedicam à produção dos eventos beneficentes, como os bingos e bazares, além do tradicional churrasco todo primeiro domingo do mês. Participam do churrasco mais de 5 mil pessoas que pagam R$ 18,00 (para duas pessoas) pelo almoço.
Os eventos são fontes importantes de arrecadação, já que apenas 40% dos recursos do Pequeno Cotolengo saem de convênios com os governos federal, estadual e municipal (direcionados para projetos específicos). Os 60% restantes dos recursos são levantados com os eventos e doações. "Por se tratar de uma instituição grande, bem organizada, tudo aqui ganha constante manutenção, acham que o Pequeno Cotolengo é rico. Trabalhamos bastante para conseguir captar doações para manter essas estrutura, os gastos são altos e ficam em R$ 620 mil mensais", informa o padre Valdeci Marcolino, diretor-presidente da instituição.
Desde que foi fundado, em 1959, a pedido do arcebispo de Curitiba da época, Dom Manuel da Silveira D’Eboux, o Pequeno Cotolengo é administrado por religiosos da congregação Orionita. O arcebispo fundou o Pequeno Cotolengo seguindo a filosofia espiritual e os moldes da Pequena Obra da Divina Providência deixada por São José Benedito Cotolengo, na Itália. "Acolhemos portadoras de deficiências física e intelectual leve, moderada e grave. Temos uma fila de espera de 70 pessoas", conta padre Valdeci.
A triagem para novos moradores é feita pelos Conselhos Tutelares, Ministério Público e Fundação de Ação Social (FAS), considerando sempre o abandono, as dificuldades financeiras das famílias e a vulnerabilidade social. Os moradores permanecem no Pequeno Cotolengo até serem adotados, o que é raro, ou até falecerem.

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