A magnólia floresce uma vez por ano, o bambu do tipo mosso deve ser torcido na ponta para não crescer além da conta, as suculentas precisam de água diariamente, bem como as andinas e o pingo de ouro. Tem as que gostam de sol e as que gostam da sombra, a dona de casa Madalena Casagrande conhece todas elas.
  Quando veio do interior do Estado para Curitiba, há mais de 30 anos, ela trouxe na bagagem o conhecimento para o trabalho com a terra, que aprimorou ao longo dos anos com uma ajuda do marido, que trabalha trazendo mudas de plantas de São Paulo para a capital paranaense.
  Hoje, para onde quer que se olhe na casa de Madalena encontramos uma planta. Estão penduradas no teto, cobrindo o muro, enterradas no chão, subindo as árvores, fazendo a alegria dos passarinhos e chamando a atenção da vizinhança, que se encanta com a beleza do seu jardim. Modesta, a responsável foge dos elogios, ‘‘Ih, agora tá feio, tem que ver no verão quando está todo florido’’, diz.
  Para a dona-de-casa, o trabalho com a terra é uma forma de terapia. ‘‘Aqui (no jardim) eu fico em paz’’, afirma. Mesmo com dores nas costas ela não deixa de passar pelo menos uma hora por dia cuidando das plantas logo que o sol se põe.
Poder terapêutico
  Para o paisagista e mestre em botânica Silmar Goetzke, o caso de Madalena não é isolado. Segundo ele, a jardinagem tem o poder terapêutico de criar uma atmosfera rural no meio urbano. ‘‘Quanto mais a gente vive em um meio artificial, mais precisamos de um local tranqüilo para relaxar’’, afirma.
  Há 29 anos ministrando cursos de paisagismo, Goetzke observa um crescimento na preocupação dos habitantes dos grandes centros em desenvolver essas aptidões, retomando o contato com a natureza. Quando iniciou sua carreira, em 1978, ele conta que a jardinagem estava no quinto plano de importância na vida dos curitibanos. ‘‘Não havia plantio de flores nas casas, não tinha preocupação com a grama nem com plantas harmonizando com a casa’’, lembra.
  Com o despertar da consciência ecológica e a busca pela tranqüilidade encontrada no campo, esse quadro mudou. Prova disso é que há dez anos, Goetzke ministra um curso voltado ao cultivo de vegetais dentro de residências. ‘‘Dá pra ter tudo até dentro do apartamento, basta reproduzir a situção ecológica das plantas’’, considera.
Estilo europeu
  Segundo o paisagista e mestre em botânica Silmar Goetzke, predominam no Paraná os jardins de estilo clássico, que tem sua origem na Europa. Isso se deve à grande presença de imigrantes europeus no Estado. Esse tipo de jardim privilegia as formas geométricas e nos remete à filosofia de René Descartes, na qual o homem, através da racionalidade, domina a natureza, alterando suas formas. São exemplos desse tipo os jardins do palácio de Versalhes, em Paris, e o Jardim Botânico, em Curitiba.
  Em alguns casos, o jardim rompe as fronteiras da própria casa. Foi o que aconteceu com a dona de casa Ana Vertberg Faria, que usou a calçada em frente à sua residência, no bairro Alto da XV, para expandir seu pomar. Quem passa por ali tem a oportunidade de voltar pra casa com uma salada de frutas completa. Manga, limão, cereja, tomate japonês e pitanga fazem parte do cardápio. ‘‘Tem gente que vem de caminhão tirar as mangas’’, exagera a senhora, que precisou cortar um pé de ameixa por conta do assédio dos fãs da fruta. ‘‘Faziam muito barulho’’, reclama.
  Assim como Madalena, Ana aprendeu a lidar com as plantas quando ainda morava no campo. ‘‘Sou cabocla, já tá no sangue da gente’’, diverte-se. Ela também considera a jardinagem uma espécie de terapia, que lhe traz paz interior além de embelezar a casa. ‘‘Tem que ver no verão, tenho lírios de todas as cores’’, orgulha-se.

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