Um inventor, acima de tudo
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segunda-feira, 25 de maio de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Com olhos profundamente azuis, o pequeno Max, então com 7 anos, pergunta encantado ao avô como ele inventou o cinema. Ele responde: "joguei para cima e ele se fez!". Max relembra que ele e o irmão, baseados na fórmula mágica dada de mão beijada pelo avô, também tentaram recriar o cinema. "Não deu certo", emenda Max, em um francês elegante e esboçando um de seus poucos sorrisos.
A história, acontecida nos anos 1940, bem poderia ser comparada a uma fábula se os personagens fossem outros, não os Lumière. De fato, o avô de Max Lumière inventou o cinema. Ele, que hoje tem 73 anos, é neto de Louis Lumière, o francês que, ao lado do irmão Auguste, desenvolveu o cinematógrafo, o primeiro dispositivo a permitir a projeção de imagens animadas em uma tela de grandes dimensões. O ano era 1895. O dispositivo, patenteado pelos irmãos Lumière, avançava o filme de tal forma que criava a projeção. Era o que, anos depois, convencionou-se a chamar de cinema. Simples assim, como jogar para cima.
O Cinematógrafo Lumière, onde os filmes eram exibidos, abriu as portas ao público em 28 de fevereiro de 1895. A partir dessa data, o mundo nunca mais foi o mesmo. Quantas vezes crianças -ou adultos maravilhados- arregalaram os olhos para ver a projeção de um filme? Não poucas. Com Max Lumière, o mesmo acontece até hoje, com a diferença de saber que isso só possível por causa do avô.
A invenção do avô o orgulha, mas não o infla e nem o deslumbra. "Vejo um filme com a mesma sensação de outras pessoas. Tenho um sentimento de honra e orgulho, mas vai até esse ponto. Não fiz nada para fazer parte dessa família. Só nasci nela. Simplesmente", diz Max.
A frase, que aos olhos do calor brasileiro pode soar fria ou blasé, revela a sensatez do neto de Louis Lumière. Estamos no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, horas antes da abertura da exposição "Autocromos Lumière, o tempo da cor", que fica em cartaz no MON até o dia 13 de setembro. Max veio a Curitiba para o evento, há uma semana. A mostra traz, pela primeira vez ao Brasil, obras do Institut Lumière, responsável por abrigar, em Lyon, na França, as criações da dupla.
Max veio ao Brasil representar a família. Além de trazer a Curitiba filmes feitos pelos irmãos Lumière, a exposição contém mostras do autocromo, outra técnica inventada pela dupla e que deu origem à fotografia colorida. De acordo com Max, o autocromo era a invenção mais estimada pelo avô. Mais até que o cinematógrafo -a origem de toda a indústria do cinema. "A criação do autocromo deu muito mais trabalho e o máximo de satisfação. Pelo menos era o que ele dizia", rememora.
A estimação pela invenção está impressa nas fotografias penduradas na sala de exposição: respeito às regras de composição, enquadramento, luz, cor. "Hoje existem os manuais de fotografia, que não existiam na época. Meu avô sabia enquadrar de forma inata. Sabia antes mesmo dos manuais", deslumbra-se o neto.
Quando indagado qual das características era a principal do avô -se artista ou inventor-, Max exalta a voz mansa e responde, sílaba por sílaba, para que qualquer um que não seja francês entenda: "incontestavel-mente, ele era um inventor". E continua: "era um inventor nato. Toda a vida, ele inventou coisas, coisas que não são ditas".
De fato. Apesar de terem sido imortalizados pela invenção do cinematógrafo, os irmãos Lumière também criaram outros objetos essenciais para a vida que passou a se chamar de moderna. Entre eles, estão o autofalante, a guitarra elétrica (o propótipo, na verdade, eletrificava o violino), a panela de secar alface girando uma manivela, e -pasme- a fotografia em relevo. "Ele começou a trabalhar nisso e chegou a desenvolver. Mas tinha um inconveniente...", diz Max, antes de fazer uma pausa, "... cada fotografia pesava 100 quilos!". E ri, mostrando com os dedos a espessura da imagem.
Max conta que, quando viu um filme pela primeira vez, sabia que era uma criação do avô. Ainda assim não mensurava a importância do cinematógrafo -já que o herdeiro nascera e a tecnologia já exisitia. Lembra-se, sim, das férias na casa do avô, que descreve como afetuoso, sempre gênio, inventando coisas e jogos para a diversão dos netos. "Ele era como são todos os avós", diz Max sobre seu avô-privado, conhecido apenas na intimidade do lar.
Revela ainda que Louis Lumière se sentia feliz com as invenções, mas não ficava transtornado ou deslumbrado. "Ele tinha sede de criação. Depois que terminava de inventar algo, já passava para outra coisa", afirma. Tanto o é que o Lumière neto diz que o avô nunca fez cinema. Apenas fazia registros. São coisas diferentes.
Criança ainda, Max só soube quem era o avô-público no dia da morte dele. "No enterro de meu avô, tive a ideia de quanto ele era célebre", conta, voltando àquele dia de 1948, quando o avô morreu. Era um número muito grande de pessoas (e pessoas importantes) presentes no funeral: políticos, cardeais, homenagens com honras militares. O garoto tinha 13 anos. Só então Max entendeu tudo: era só jogar para cima e as coisas passavam a existir.


