Um homem de ossos e flores
O ortopedista Lafayette Marques Guimarães, 75 anos, ainda era um garoto do ensino ginasial, muito concentrado nos estudos, quando o professor das disciplinas de português e latim lhe disse: ''Lafayette, você tem que estudar Medicina''. A conversa despertou a vocação do rapaz, filho de um oficial do Exército, nascido no Rio de Janeiro no tempo em que a cidade ainda era a capital federal e criado no município sul-mato-grossense de Aquidauna, para onde o pai fora enviado pelas forças armadas. ''A cidade era um areião só'', ele relembra. ''Mas dela fiquei com boas recordações e costumes, como o gosto pela pescaria'', complementa.
Depois de concluir o ginásio em Aquidauna, ele se mudou para a capital do Estado, Campo Grande, para fazer o antigo curso científico. Terminada essa fase, a vontade de estudar mais e chegar à Medicina levaram-no para Curitiba. Foi aprovado no vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em primeiro lugar, na mesma turma da fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, morta no último mês em um terremoto no Haiti. ''Ano passado, na nossa comemoração de 50 anos de formados, encontrei a Zilda e conversamos. É lamentável o que aconteceu'', entristece-se.
Com o diploma nas mãos, em 1959, era a hora de trabalhar. Começou como interno de clínica cirúrgica da Santa Casa de Curitiba, onde já fazia também cirurgias ortopédicas. Ficou por algum tempo até ir para a capital paulista, já uma metrópole, que lhe deu a primeira esposa, Siva, falecida em 2000, e emprego no Hospital Ipiranga, no Hospital Matarazzo e no Pronto Socorro de Fraturas da Lapa. ''Eu rodava 100 km por dia com o meu fusquinha, amassando barro. Era um ritmo alucinante de trabalho'', conta.
Alucinante e cansativo demais para um homem criado na beira do rio, em Aquidauana. Já com os filhos Waldemar, Denise e Cristina, Guimarães resolveu procurar novos ares. Na lista de opções, as catarinenses Florianópolis, Blumenau e Itajaí; a capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, e Londrina. ''Uma irmã minha havia se casado com um londrinense e estava na cidade. Além disso, um colega de turma, o José Carlos Brandão, um radiologista, havia se instalado em Londrina. Acabei por me tornar um pé vermelho'', explica o ortopedista.
O ano era 1974. Chegou com emprego arranjado por conta do vínculo que tinha em São Paulo com o extinto Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), que funcionava em barracões na Avenida Leste-Oeste, onde hoje está o prédio do Cismepar. Paralelamente, atendia no hospital montado pelo médico Ovídio Carneiro próximo à catedral, em uma casa, já nominado Hospital Ortopédico de Londrina.
Em 1977, o movimento no hospital era enorme. Junto do colega Axel Hulsmeyer decidiu construir um Hospital Ortopédico mais moderno, o atual na esquina da Duque de Caxias com a Juscelino Kubistcheck, financiado pelas economias dos dois. ''Naquele tempo o INPS pagava bem. Imagine se hoje um médico que só recebe do SUS consegue fazer algo assim'', ele comenta.
''Durante as minhas cinco décadas de profissão, a Medicina evoluiu muito. Hoje há muito mais meios para o diagnóstico, as doenças podem ser tratadas de forma mais precisa. Todos os dias, as revistas médicas trazem novas técnicas, novas órteses, próteses, parafusos. Eu também cheguei a usar a maletinha no tempo que fiquei em São Paulo. Por isso temos que estar sempre evoluindo, aprendendo'', destaca o ortopedista que, quando parou de anotar, há oito anos, já havia feito três mil cirurgias.
Atualmente, ele divide o tempo com as suas roseiras, às quais dá carinho e atenção, recebendo de volta perfume e cores; com a esposa Nelma e com o trabalho, atendendo todas as tardes no Ortopédico, onde não gosta de deixar paciente esperando por muito tempo. Até dias atrás, também pescava, mas o companheiro de pescaria, o José, um bom japonês, faleceu. Em homenagem ao amigo, Lafayette plantou cerejeiras.
''Sou realizado. Muitas vezes me dizeram que já é tempo de parar, que já trabalhei muito. Mas atender a pacientes é meu prazer, algo que me completa, que me dá felicidade'', finaliza. (W.S.)





