Um gigante impotente
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de setembro de 2001
Agência Estado 
Acordei com o barulho de uma explosão que parecia ter acontecido algumas quadras abaixo de onde moro. O telefone tocou. Meu marido atendeu e veio até a porta do quarto. ''Sabe o que aconteceu?'', disse ele, ligando a televisão. ''É sobre a explosão?'', perguntei. ''Um avião entrou no World Trade Center'', foi a resposta, acompanhada pelas imagens mais estupefacientes que já vi na vida surgindo na tela: os dois maiores arranha-céus de Nova York arrebentados, soltando uma longa e imensa nuvem de fumaça preta em direção ao leste.
Por mais absurdo que possa parecer, aquela era uma cena sempre imaginada. Um dia ia acontecer. Do andar acima do meu ouvi as vizinhas equatorianas, que só conseguiam dizer: ''Meu Deus, Meu Deus...''
Subimos até o topo do prédio. Centenas de pessoas fizeram o mesmo em toda a redondeza. Ali, a cena tornou-se viva, tendo ao fundo um céu limpo e azul. Além do som das sirenes correndo em direção ao sul de Manhattan só havia um estranho silêncio. Não consegui segurar o choro por entender que aqui, na maior cidade norte-americana, somos um alvo tão vulnerável. Mas era preciso telefonar para a família, no Brasil, dizer que estava tudo bem.
Fomos para a rua, com a intenção de chegar até o centro da cidade da maneira que fosse possível, pela obrigação de repórteres. Na porta do edifício ao lado, uma vizinha perguntou se por acaso sabíamos se os trens estavam funcionando. A única coisa que ela queria era sair da cidade, ir para longe. Uma moça que vinha pela calçada avisou: ''Não há mais trens saindo ou chegando e as pontes estão sendo fechadas. Nós estamos trancados em Manhattan''.
O ataque havia acontecido havia quase uma hora. As avenidas começavam a ser tomadas por multidões vindas do sul, caminhando em direção ao norte da cidade, deixando para trás aquele cenário absurdo. Em todos os rostos havia um olhar aparvalhado. Quem tinha telefone celular, estava grudado nele, falando, andando e olhando para trás. Os telefones públicos tinham filas e muitos já não estavam mais funcionando. Os poucos carros particulares que circulavam tinham rádios ligados por onde se ouvia que a Casa Branca estava sendo esvaziada, que outros ataques haviam ocorrido na capital do país.
A coisa era muito maior do que se podia pensar. Mas a poucas quadras acima da área atacada não havia sinal de pânico. Só estupefação. Quase ninguém queria falar.
Quando conseguimos chegar a Chinatown, a multidão que deixava a área sul da cidade já era muito maior. Na fila de um telefone público conversei com a porto-riquenha Madelin Gonzalez. Funcionária da vice-presidência de um banco localizado no 26º andar do edifício no número 7 da World Trade Center Plaza, ao lado das torres atacadas, Madelin contou que tinha acabado de entrar na sua sala, ontem pela manhã, quando viu papéis e pedaços de metal voando do lado de fora da janela.
''Então escutei uma explosão e vi gente pulando das janelas da primeira torre, que estava pegando fogo. Todas as pessoas do nosso escritório começaram a sair, descendo pelas escadas como sempre fomos instruídos a fazer em caso de emergência. Foi aí que aconteceu a segunda explosão, quando o outro avião entrou na segunda torre. A única coisa que pensei na hora foi sair para o mais longe possível'', disse Madelin.
No edifício onde Madelin trabalha também está localizado o comando municipal para situações de catástrofe. ''A área sempre teve muita segurança, mas não sabia que era tão fácil sermos atacados pelo ar'', disse a moça, comentando: ''Nós, norte-americanos, nos intrometemos na vida de muitos países e é assim que somos pagos: somos atacados com nossas próprias armas''.
Naquele momento, parte do edifício atingido pelo primeiro avião desabou. Muitas pessoas começaram a chorar. Não um choro desesperado. Um choro em silêncio.
Alguns minutos depois, enquanto atravessávamos a Broadway, vimos apenas o segundo edifício pegando fogo. De repente, houve uma movimentação diferente. As pessoas que estavam andando para o norte voltaram-se para o lado contrário, correram um pouco e pararam, olhando para cima. O segundo edifício do World Trade Center estava caindo em meio a uma fumaça branca. O choro coletivo aumentou.
Quando a fumaça se dissipou, do meio da Broadway e olhando para o lado do centro financeiro da cidade, o que se viu foi a linha de prédios de Manhattan beirando o East River sem as torres gêmeas com mais de 100 andares que milhões de pessoas cresceram vendo todo dia ali.
Nova York nunca mais vai ser a mesma sem elas. Agora tem um vazio naquele lugar e dentro de cada um de nós que moramos aqui.
A polícia fechou todos os acessos para o sul da cidade a partir da rua Canal. Começamos a voltar para casa. Na rua West Broadway, encontramos o empresário brasileiro Tufi Duek, proprietário da marca Zoomp, que, pelo celular, ligava para parentes em São Paulo, pedindo que avisassem suas duas filhas de que ele estava bem.
Duek ainda estava no quarto de um hotel no Soho, onde está hospedado desde a semana passada, quando percebeu que alguma coisa estranha estava acontecendo na vizinhança do bairro. Ligou a televisão e viu a imagem de uma das duas torres do World Trade Center pegando fogo. ''Ainda não tinha noção do que tinha acontecido quando vi, pela TV, um avião entrando na outra torre'', contava Duek. ''Saí do hotel e fui tomar café na rua. De repente, a multidão começou a correr no sentido contrário dos dois prédios. Foi quando a primeira torre começou a cair''.
A preocupação dele era saber como estavam seus amigos, hospedados num hotel da Park Avenue, em Midtown, que deveriam descer para o sul da cidade. ''Por sorte todos ainda estavam lá'', contou o empresário. A essa altura, não havia mais meios de locomoção pela cidade. ''Vou tentar trabalhar no meu showroom e sei que terei de ficar aqui, pois não vai sair avião dessa cidade por um bom tempo'', disse Duek.
De volta para casa, ouvindo helicópteros que sobrevoavam a ilha de Manhattan, comecei a telefonar e passar e-mails para os amigos que moram aqui. Todos eles estavam fazendo o mesmo, à medida que conseguiam linha telefônica. Precisávamos saber que estávamos vivos. Só pude pensar em escrever um relato do que havia visto.
Liguei o rádio e ouvi o governador do Estado de Nova York, George Pataki, dizer que a cidade e o país estavam sob ataque e devíamos manter a calma. Mas a cidade, nesse momento, não parecia calma. Parecia apenas um gigante machucado e impotente.


