Um exército carregou ouro verde na cabeça
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Foi no auge da produção cafeeira paranaense que uma pequena cidade se tornou metrópole. Na década de 1960, o café funcionou como uma engrenagem decisiva na definição do destino de Londrina, que conquistou sobre a poeira e o barro vermelho o título de capital mundial do café. Entre 1950 e 1975, o Estado produziu 238.789 sacas dos valiosos grãos. Em 1961, os agricultores paranaenses alcançaram o recorde de 21,4 mil sacas produzidas em apenas um ano, patamar que nunca mais seria alcançado até a derrocada da cultura após a geada negra de 1975.
Quem viveu nesta época tem lembranças dos extensos cafezais que tomavam a zona rural da região. Longe dos olhos da maioria, um exército de homens carregou na cabeça as toneladas de "ouro verde" que deixaram a região de Londrina para encantar o paladar do mundo todo.
Jovelino Fanela, um ativo senhor de 70 anos, foi uma das peças desta engrenagem. Há 56 anos, trabalha no setor de armazenagem de café. Foi contratado como office boy em uma empresa de armazéns gerais em 1957 e, a partir desta oportunidade, começou a carreira no ramo de transporte e armazenagem, onde sempre lidou com o preparo do café para exportação. Nos áureos tempos, chegou a embarcar em um só dia, contando apenas com a força física dos carregadores, cinco mil sacas de café.
Fanela, que curiosamente não toma café puro, é um expert na administração de armazéns. Gerenciava exércitos de homens que, com sacas de 60 quilos na cabeça, não contavam com a tecnologia atual para levar o produto aos vagões de trem e caminhões. "Os saqueiros andavam até cem metros e subiam 25 degraus com o café nas costas", recorda. A despeito do mar de soja que tomou as lavouras do Paraná após a geada de 1975, Jovelino nunca lidou com a oleaginosa. "Meu negócio é café", garante. Por isso, ele sente saudades do tempo em que o Paraná abastecia o mundo inteiro com os grãos utilizados para o preparo da bebida.
Testa preta
O aposentado Aparecido Rosa, de 67 anos, foi um dos milhares de saqueiros que trabalhou carregando café da região de Londrina para abastecer o mundo. Associado do Sindicato dos Trabalhadores na Movimentação de Mercadorias em Geral e Arrumadores de Londrina, por décadas ele enfrentou a rotina de chegar à associação todas as manhãs e esperar alguma empresa solicitar serviços. "O sindicato era o ponto do rodízio. As firmas pediam trabalhadores e a gente ia de kombi para o local", recorda ele.
Até a geada negra, não houve um dia em que Aparecido tenha ficado sem trabalho. Pelo contrário, chegou a carregar as mercadorias por mais de 24 horas seguidas para permitir que as empresas dessem conta dos prazos de entrega do café. "Não se carregava café andando, mas correndo", lembra.
Na esteira da riqueza que se abateu sobre Londrina, o saqueiro aposentado conta que os trabalhadores mais dispostos também ganhavam mais dinheiro que a média. Isso porque, a partir da 18ª hora trabalhada, pagava-se hora extra de 300%. "Muita gente não aguentava e desistia", diz ele, que chegou a ganhar o equivalente a 12 salários mínimos em um mês.
Algumas características eram inerentes ao trabalho dos saqueiros, como os chapéus "cata-coco" usados para proteger a cabeça e o apelido de "testa preta", por causa das marcas das sacas de café. Para aguentar o ritmo puxado, Aparecido lembra que muitos saqueiros recorriam à pinga. Na hora do almoço, as turmas de trabalhadores dividiam a bebida para "ganhar energia". "Fazia a canseira sumir", diz ele. No ambiente de trabalho, também era comum haver "competições" de força. "Tinha gente que levava dois sacos de uma vez só por boniteza", relata.
Tanto esforço deixou um saldo negativo na vida do aposentado, que enfrenta graves problemas vasculares. Ele, porém, nunca se imaginou em outro emprego. "Minha sina era esta", simplifica.










