Um espaço democrático para exercer a cidadania
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sábado, 12 de junho de 2004
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Quem pensa que ler jornal é um ato passivo, não conhece o senhor Tochitane Mitsi. Toda vez que fica indignado com alguma notícia - o que acontece com frequência, ele escreve uma carta. Depois, leva o ''rascunho'' para um dos filhos, que corrige e reescreve o texto. Então Mitsi grampeia uma cópia de sua identidade e entrega pessoalmente o envelope na portaria da Folha de Londrina. ''Sei que as minhas cartas não vão resolver o problema mas acho que isso é praticar cidadania. Eu estou fazendo o que posso para que meus filhos e netos vivam uma vida melhor'', explica.
Aos 64 anos, aposentado e trabalhando como gerente de um restaurante, Mitsi é um cambeense apaixonado por Londrina que se interessa por tudo que diga respeito à cidade. ''Eu já escrevi cartas sobre política, economia e até sobre esse problema dos bueiros. Tudo me interessa'', garante. Além do jornal, Mitsi lê revistas e livros. Quem conversa com o homem simpático e fluente nem desconfia que ele parou de estudar na 3 série do ensino fundamental. ''Meu pai ficou doente e aos 13 anos eu saí da escola para trabalhar e ajudar a sustentar minha família'', conta o aposentado, que usou a própria experiência para escrever sobre o trabalho infantil.
Durante toda a adolescência Mitsi trabalhou em dois e até três atividades. Vendia frutas na rua, na feira, catava ferro-velho, era empacotador e lanterninha do Cine Ouro Verde. ''Eu senti muito deixar a escola e durante anos eu tinha dificuldade até para conversar com os outros porque eu não tinha cultura''. Inconformado, Mitsi voltou a estudar quando o primeiro filho estava no primário. Fez supletivo e depois um curso de eletrônica por correspondência e ainda achou tempo e disposição para chefiar um grupo de escoteiros.
Hoje, Mitsi exercita cidadania através da seção de cartas da Folha. ''Acho que a gente tem que participar das coisas da comunidade. Todo mundo deve fazer alguma coisa para deixar o mundo um pouquinho melhor do que quando nasceu'', filosofa. Ultimamente, Mitsi anda preocupado com política e escreveu sobre as eleições que se aproximam: ''Eu acho que o candidato que está sendo processado por atos contra o patrimônio público não poderia concorrer antes de provar que é inocente'', opina.
A primeira carta, escrita há mais de dois anos, questionava a aplicação do dinheiro arrecadado com a Contribuição Provisória por Movimentação Financeira (CPMF). ''Já pensou se tudo fosse mesmo investido na saúde? Não tinha mais doente nesse país'', brinca Mitsi. Ele conta que escreveu a carta num rompante de indignação, como uma forma de protesto. ''No dia seguinte, quando vi a carta publicada, fiquei muito satisfeito e liguei para o meu filho. No fundo, eu não acreditava que aquilo que eu escrevi ia sair no jornal'', confessa. Foi então que Mitsi começou uma coleção inusitada que pretende deixar para as futuras gerações: ''Através dessas cartas meus netos vão poder saber como era o país e como era o avô deles''.


