Um dia de cão, 10 anos depois
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quarta-feira, 10 de dezembro de 1997
Paulo Briguet Londrina 
Existem muitas histórias de aniversário. De vez em quando, há dias de cão. Eventualmente, acontecem noites de caça. A história que lembraremos a seguir uniu as três circunstâncias. Dez anos atrás, o aniversário de Londrina começou como dia de cão e terminou numa noite de caça. Era, como hoje, 10 de dezembro. Em 1987, os cidadãos londrinenses cumpriam sua rotina com relativa tranquilidade, na medida em que era possível estar bem no país que vivia profunda crise econômica e forte escalada inflacionária. O sonho do Plano Cruzado, lançado em 1986 pelo presidente José Sarney, não havia dado certo e acabara em ressaca nacional. A moeda, fraca e desmoralizada, era o cruzado novo.
O dia de cão começou em Londrina por volta das 11 horas da manhã, quando sete homens armados entraram na agência central do Banco do Estado do Paraná (Banestado). Era uma sexta-feira, dia de pagamento de salário e vencimento de contas. A agência bancária estava lotada.
Os assaltantes agiram rapidamente e tomaram mais de 300 pessoas como reféns. Como resgate, exigiram 30 milhões de cruzados novos e um ônibus para fugir. Em certo momento, o líder do grupo improvisou um discurso contra o governo para uma platéia de reféns deitados. No final da tarde, quando os ladrões conseguiram o dinheiro e o veículo, selecionaram 12 reféns para levar na fuga, entre eles o delegado-adjunto da Polícia Civil, o comandante da Polícia Militar, um padre e um repórter da Folha de Londrina.
Começava a noite de caça. Na escapada, houve várias trocas de ônibus. A aventura caótica só foi terminar na manhã do dia seguinte, a centenas de quilômetros de Londrina, na rodovia Castelo Branco, sob os tiros da PM paulista. Com exceção de um vigia do banco, baleado logo no início do assalto, ninguém saiu ferido. Horas depois do tiroteio na rodovia, os 12 reféns voltavam para casa e seis assaltantes estavam presos, inclusive o que mais se destacou, Moreno, o líder carismático, gentil com os reféns e capaz de atitudes inesperadas - como distribuir entre as vítimas o dinheiro do assalto. Um dos ladrões, o misterioso Barba, nunca mais foi encontrado.
O assalto parou Londrina. Na tentativa de acompanhar as cenas do drama, cujos protagonistas estavam escondidos pelo vidro fumê da imponente agência bancária da avenida Paraná, milhares de pessoas se acotovelavam, contidas pelo cordão de isolamento da polícia. Os curiosos, os jornalistas, os parentes e amigos de reféns procuravam ver algum relance do episódio: o malote de dinheiro que entrava pelas mãos de um gerente de Banestado; a refém grávida que era liberada pelos bandidos e saía carregada pelo repórter da Folha; o ziguezague das centenas de policiais civis e militares. Acontecia ali um estranho espetáculo. As vaias e aplausos da multidão eram constantes. Na saída do ônibus e dos reféns para a noite de fuga, uma grande salva de palmas.
Quem não foi até as ruas próximas ao Banestado, escutou. Os rádios estavam ligados na maioria dos escritórios, repartições, lojas, casas, escolas, bancas de jornal, consultórios médicos, bares, postos e automóveis da Cidade e da região. Mas a televisão também participou, mostrando flashes do assalto para todo o País. Londrina jamais foi tão exibida para o Brasil durante um só dia. Além das inúmeras reportagens da imprensa nacional, até mesmo um livro foi escrito sobre o episódio - Assalto à Brasileira, de Domingos Pellegrini Júnior.
Hoje, o que pensam os personagens daquele aniversário?


