Um banheiro em condições de uso
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quarta-feira, 03 de junho de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Há algumas semanas, um homem entrou em um dos banheiros públicos da Rodoferroviária de Curitiba e se trancou lá dentro. O local foi dado como interditado. "Era um ex-presidiário. Com certeza se trancou lá para usar droga", especula Dana Melo, funcionária de uma loja que vende lembrancinhas de viagens dentro da Rodoferroviária. O comércio fica ao lado do banheiro onde a história aconteceu. Dana não consegue precisar os motivos pelos quais o "invasor" privou as pessoas de usarem os sanitários, mas de que ele é ex-presidiário, isso ela tem certeza. "Ele passou aqui antes mostrando um papel da penitenciária e pedindo dinheiro para voltar para sua terra", recorda a jovem.
No mesmo banheiro, um "coroa" deixa seu telefone e promete, faceiro, levar outros homens à loucura. O teor do anúncio quente é impublicável. Está escrito com um pincel atômico azul, com letras grandes e tremidas. Abaixo, Jeferson confirma que passou por ali. Usou uma caneta esferográfica, dessas simples, para postegar pela eternidade o seu momento privado no banheiro público. O restante da porta está cheio de nomes, números de telefones, cantadas, palavrões, rasuras, tentativas de limpar tudo isso. Se amanhã for, de fato, limpa, semana que vem os rabiscos voltam a se repertir, como um eterno retorno que sempre vai deixar sua marca.
Este é um retrato de alguns banheiros públicos de Curitiba - situação que pode se estender a qualquer sanitário do País. Por mais que os governos se esforcem para oferecer um serviço de qualidade, os banheiros não resistem à fúria de muitos usuários. De acordo com a Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs), responsável por administrar banheiros públicos em Curitiba, a prefeitura gasta por mês um grande valor com a manutenção dos espaços. A Urbs não tem o custo apenas do banheiro; o valor entra na conta final de gastos dos locais onde os sanitários se encontram. O dinheiro público escoa pela descarga principalmente por causa do vandalismo.
Rubico Camargo, diretor de desenvolvimento da Urbs, explica que os banheiros de Curitiba são apenas mais um dos bens públicos que sofrem com a depredação dos próprios usuários. Ele cita um exemplo recente ocorrido na Rodoferroviária. No ano passado, foram instaladas torneiras com sensores de movimento, que escoavam a água assim que o usuário colocava a mão debaixo dela. A intenção era evitar desperdício e economizar água. Quem pensa que a iniciativa deu certo, se engana. Pouco tempo depois, todas as torneiras foram roubadas. O prejuízo foi enorme. O ladrão era um possível encanador ou entendia de hidráulica. "Se não fosse isso, não teria conseguido roubar", diz Camargo.
Além do vandalismo, outro exemplo de uso indevido de sanitários está no da Praça Osório, no Centro da cidade. Apesar da localização, da segurança e de custar R$ 0,50 ao usuário, o banheiro do local é utilizado por pederastas, viciados e outros tipos de contraventores. O banheiro da Praça Osório é clássico do bem público sendo utilizado como privado. "Este é um local que dá trabalho. Hoje, ele custa mais do que arrecada. Se não cobrássemos, a degradação ia ser muito maior. Mas somente a cobrança não é suficiente", diz Camargo.
Apenas em abril deste ano, mais 20 mil pessoas usaram o banheiro da Praça Osório. Em cada um dos pontos com banheiro público na cidade, a prefeitura de Curitiba gasta por mês em torno de R$ 350 mil somente em segurança. A tentativa é evitar depredação e desperdício. No entanto, a vigilância em sanitários não pode ultrapassar os limites e configurar a invasão de privacidade. Câmeras, por exemplo, são proibidas por lei.
Enquanto são destruídos, as pessoas não se cansam de exigir que mais banheiros sejam instalados em locais públicos. Para o arquiteto do Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) Mauro Magnabosco, que coordena o projeto de revitalização do Centro da cidade, o problema dos sanitários públicos revela a falta de educação da população. "Observamos que em tudo o que é oferecido publicamente, as pessoas descarregam algum tipo de mágoa", diz ele. A "mágoa" acaba por configurar vandalismo.
Para Magnabosco, as pessoas confundem e ultrapassam os limites entre o público e o privado. "Nos shoppings, o público que circula é o mesmo dos terminais, mas o vandalismo está apenas nos terminais. Tudo o que é público é alvejado com raiva. Quem estraga o ônibus? É o próprio usuário", comenta. Para o arquiteto, que cuida de projetos que envolvem bens públicos, o vandalismo revela uma mensagem de agressão e descontentamento. "Mas não é só descontentamento, é falta de educação", indica. Na opinião do diretor da Urbs, falta uma cobrança dos usuários uns aos outros. "Não podemos deixar de cobrar esse respeito. As pessoas estão muito passivas", acredita. Enquanto isso, o banheiro mais próximo pode estar sem condições de uso.


