Ele já foi chamado de Vila Morgenau, Capanema e Cajuru. A luz elétrica e as ruas asfaltadas só chegaram na década de 1970. Hoje, com o nome oficial de Cristo Rei, o bairro abriga pouco mais de 13 mil habitantes, na maioria pessoas entre 20 e 30 anos, e possui um crescimento médio populacional de 2,04% ao ano. Este número fica acima da média do crescimento de Curitiba, que está em 1,82%, segundo dados o IPCC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba).
O Cristo Rei não é um lugar turístico. Não possui hotéis e flats, tampouco oferece grande variedade de restaurantes. A região representa 0,34% de todo o território da cidade e fica localizada na região leste de Curitiba. O bairro é conhecido por abrigar o Hospital Cajuru e a Estação Rodoferroviária. Por isso, moradores das mais diversas áreas da cidade já passaram por lá.
O aposentado Eloy Fassi Casagrande nasceu no Cristo Rei há 73 anos. O seu pai era zelador da Sociedade Morgenau, tradicional clube da cidade. O nascimento de Casagrande foi realizado dentro do clube, por uma parteira. Desde que nasceu, o aposentado nunca mais deixou de morar no bairro. Na adolescência, frequentava o Cine Morgenau, extinto cinema localizado perto de sua casa. ''Conheci minha esposa aqui no Cristo Rei, nos bailes da Sociedade Morgenau. Já estamos juntos há 50 anos'', conta. Casagrande se considera conservador e não tem planos de sair de lá. ''Se eu puder, quero continuar aqui até o fim da minha vida. Morar aqui é um privilégio, já que fica perto do centro, do Mercado Municipal, da Rodoferroviária e da BR que dá acesso às praias''.
Casagrande é cliente de um dos estabelecimentos mais antigos do Cristo Rei. O armazém Simm existe desde 1941 e segue, até hoje, os mesmos métodos de venda. Os clientes mais antigos possuem seus nomes em um ''caderninho'' para anotar todas as compras e acertar o pagamento no início do mês. ''Aqui vendemos de tudo, do piso ao teto'', brinca Amauri Simm, proprietário do armazém. Ele herdou a loja do pai e agora ensina seu filho a tomar conta do negócio.
Para o dono do estabelecimento, trabalhar com comércio é sinônimo de diversão. ''Uma vez uma menina chegou aqui e pediu uma vela de sete anos. Eu disse que ela estava enganada e mostrei a vela de sete dias. Então a menina, indignada, falou que iria completar sete anos de idade e queria uma vela para o bolo'', diverte-se Simm.
O proprietário da banca de jornal mais famosa do Cristo Rei, localizada em frente ao hospital Cajuru, presenciou cenas inusitadas nestes 20 anos que trabalha no bairro. Norberto Bertling veio de Joinville para cuidar da banca no lugar de um parente que apresentava problemas de saúde. Os planos de voltar para Santa Catarina acabaram ficando para mais tarde. ''Penso em voltar quando me aposentar''. Trabalhar ao lado de um hospital também rende boas histórias. Uma delas aconteceu há cinco anos, quando uma guardadora de carros da região entrou em trabalho de parto na frente do hospital. ''O bebê quase nasceu aqui na rua''. A criança foi adotada e hoje vive com uma família que mora no bairro.
Nadir Neneve trabalha no ponto de táxi em frente ao hospital há 41 anos. Ele possuía um restaurante, mas quando quebrou a perna mudou de ramo e virou taxista. O motorista trabalha 12 horas por dia e acumula histórias que chamam a atenção. Uma vez o taxista estava na rua Sete de Setembro quando um rapaz de perna engessada fez sinal para ele parar e perguntou onde era seu ponto final. ''Falei que trabalhava na frente do hospital Cajuru. Ele disse que era para onde estava indo. Quando entrou no táxi pediu para eu ligar o rádio para curtir um som. Quando chegamos, ele simplesmente desceu do carro e agradeceu. Quando perguntei se iria pagar, disse que só pegou uma carona, já que eu estava indo na mesma direção'', conta Neneve.

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