Um acervo dentro da cabeça
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quinta-feira, 09 de agosto de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Filho de uma índia pataxó com um mineiro, José Fernandes da Silva, 63 anos, se mudou com os pais e mais 13 irmãos para o interior do Paraná, no município de Santa Fé, ainda na década de 1940. A infância foi de trabalho. Aos 4 anos, já limpava tronco de café, aos seis, trabalhou com o pai na lavoura e depois nas queimadas. Foi carregador de sacas de feijão e até corretor de imóveis na fronteira com o Paraguai. Chegou a Curitiba já casado, com dois filhos. Em 1979, entrou para a Fundação Cultural como porteiro.
O destino, talvez, tenha dado um empurrãozinho que o despertou para Arte. De lá para cá apaixonou-se e nunca mais largou o universo artístico. É dono de mais de 400 obras de arte, que diz guardar com zelo num cofre do banco, e já foi monitor de dezenas de exposições que passaram por Curitiba. Um artista marcou sua vida, o polonês naturalizado brasileiro Frans Kracjberg. Desde que o acervo de esculturas, relevos e fotografias com troncos e cipós de árvores mortas, foi doado oficialmente a Curitiba, Fernandinho, como assim prefere ser chamado, é monitor e faz o atendimento ao público no Espaço Cultural Jardim Botânico.
Folha de Londrina - Qual foi sua reação diante da crítica de Krajcberg sobre a má conservação das obras, quando veio a Curitiba, no final do ano passado?
José Fernandes da Silva - Ele chegou a pedir o acervo de volta, que já tinha doado oficialmente para o patrimônio da cidade. Krajcberg sempre soube as condições e da fragilidade do espaço, que foi construído para abrigar as obras dele. Quando ele estava gravando um filme aqui, em 1996, choveu tanto que alagou a galeria toda. Imagine que o carvão que fica no pé das obras foi parar lá no lago. Ele fez essa reclamação, mas nunca falou de minha pessoa. Há cinco anos, 30 dias por mês, cuido das obras dele.
Folha - O que seria exatamente a fragilidade do espaço?
Fernandinho - O teto transparente somado ao ferro e à pedra no chão permite uma oscilação grande de temperatura, no inverno e no verão. Quando Krajcberg veio aqui, uma vez, mostrei que um passarinho tinha feito ninho em uma das obras, ele disse que era para deixar lá, que era da natureza. Mas a galeria já adquiriu telas de arame para colocar nas aberturas. Também se pensa em colocar um sistema de refrigeração. Vamos fazer o possível para que ele fique satisfeito e que as obras permaneçam aqui. Krajcberg é meu manto sagrado.
Folha - O que você quer dizer com manto sagrado
Fernandinho - Todas as pessoas que marcaram a minha vida chamo de manto sagrado. Minha esposa, o Kracjberg. Outro manto sagrado é o Sebastião Salgado, trabalhei em duas exposições dele. Numa delas, havia uma foto tirada, há 40 anos, na Serra da Canastra, que ele próprio não conhecia direito. Era do Lima Duarte sorrindo, uma moça morena encostada no ombro dele, e Milton Nascimento cantando. Em um determinado ângulo, descobri que a moça aparecia chorando e eu disse para ele que era porque o Milton estava cantando ''Ave Maria''. Ele se emocionou muito e chorou. Fez uma cópia da foto e me deu de presente.
Folha - Como se prepara para apresentar as exposições ao público
Fernandinho - A minha memória é muito boa. Tenho um acervo grande dentro da cabeça. O primeiro passo diante da exposição de um artista desconhecido é aprender a história dele, ler do folder ao convite, aprofundar mesmo. No dia que o artista chega, você tem que sugar ele, entrevistá-lo. Depois procuro olhar as obras sob vários ângulos e descobrir tudo que posso. Crio um texto em cima de cada artista que convenço as pessoas. Essa é a base do monitor.
Folha - Você não estudou regularmente numa universidade para cumprir esta função. Foi um desafio se manter como monitor de exposições?
Fernandinho - Só Deus sabe o que eu passei. Entrei na Fundação, em 1979, só tinha o primeiro ano primário. Graças ao Jaime Lerner, eu e outras pessoas puderam estudar dentro do trabalho. Hoje tenho o ensino médio incompleto. Nem falo o português corretamente, mas atendo aqui o planeta inteiro. Vem japonês, alemão, espanhol e faço todos me entenderem. Isso foi que o Kracjberg gostou em mim. Deixo as pessoas entusiasmadas diante das obras dele.
Folha - Já trabalhou com muitos artistas?
Fernandinho - Só pra ter uma idéia, já trabalhei com Picasso, Ferreira Gullar, ''50 anos de Fernanda Montenegro'', ''450 anos de Salvador'', ''500 anos do Brasil'', ''O Brasil de Portinari'' e Maurício de Souza. Fiz a exposição dos figurinos da Madonna, sobre a Bomba de Hiroshima e Nagasaki, as Moedas do Banco Central e o Massacre de Carandiru. Tenho bagagem. O que achei um pouquinho mais complicado foi o Portinari.
Folha - Como conheceu Frans Kracjberg?
Fernandinho - Ele era um artista desconhecido aqui até que o Jaime Lerner o descobriu na Eco 92 no Rio de Janeiro, e o convidou para vir a Curitiba. Ele chegou aqui, no dia 2 de outubro de 1996, para inaugurar sua exposição. Eu trabalhava na portaria do Solar do Barão, e o Orlando Azevedo (ex-diretor da Fundação Cultural) me pediu para distribuir os folders da mostra na cidade. Lembro que no começo foi difícil até para pronunciar o nome dele nos lugares.
Folha - E como iniciou o trabalho com ele?
Fernandinho - No segundo dia da exposição, o Kracjberg ligou para o Orlando reclamando que o lugar estava abandonado, só com os vigias. O Orlando me pediu para ir correndo à galeria. Chegando lá, o artista me disse: ''Quero ver como você vai se sair com o grupo de crianças''. E o Kracjberg ía nos acompanhando e fotografando tudo. No final, revelei quem era ele e a criançada avançou no velhinho. Ele me disse: ''Quero saber por que você sabe mais sobre minhas obras do que eu'' e eu respondi que era um pouco índio e que fui criado no meio das queimadas, conheço tudo quanto é cipó e madeira.
Folha - As obras que vieram, em 1996, são as mesmas que hoje estão no acervo?
Fernandinho - A maioria está aqui. Ele resolveu doar, em 2003, e disse que as portas do caminhão só seriam abertas se eu estivesse aqui para receber as obras. Levamos 18 dias para montar o acervo. Já são cinco anos que estou aqui. Parecia coisa do destino mesmo. Cansei de colocar fogo e derrubar árvore. Ajudei a destruir muitas áreas do Paraná. Só que eu era educado a fazer aquilo. Conhecer Kracjberg e trabalhar com a preservação do meio ambiente me fez renascer.
Folha - Qual é a sua relação com as obras de Kracjberg?
Fernandinho - Cada uma dessas obras me lembra aquelas árvores que queimei, no passado. Eu tirei a vida daquelas árvores e Krajcberg conseguiu dar vida a essas daqui. Considero que todo o acervo é vivo. Apesar de ser de madeira queimada, as obras estão vivas, tem uma que deu até cacho. E conveço as pessoas disso. Tem gente que viu Krajcberg conversando com as obras e falou que ele é louco. Então sou louco duas vezes porque sinto até que elas tem ciúmes uma da outra de mim. Hoje, sou um homem que tem cabeça qualificada para ajudar a natureza. Se puder, uma vez na semana, toque numa árvore que dá sorte. Aprenda isso.


