Tudo o que tenho, ganhei no rodeio
Geralmente, o destino do peão é definido na arena, mas o de Flávio de Sousa, o Mineirinho, ex-cowboy de Perobal (30 quilômetros ao sul de Umuarama), foi decidido ainda no brete.
Depois de ficar quatro anos na cadeira de rodas por causa de um acidente em que um boi o prensou contra o caixote do brete, o rapaz se tornou dono de tropa.
Ganhador de cinco motos e um carro, com os quais construiu um patrimônio de cerca de R$ 160 mil, incluindo a casa onde mora, um veículo e os 18 animais da tropa, que se apresentam em rodeios, Mineirinho diz que foi por Deus que não morreu no acidente em 1996.
''Ao montar em boi, o peão tem que tomar cuidado com o pisão e a cabeça dele. Já o cavalo, se você se livrou do pisão do animal, ele não investe contra a gente, como o boi. O brete também é perigoso. No dia em que me acidentei não sei se assustei o animal, que veio para traz e me prensou no brete. Na hora já senti tudo adormecendo. Enquanto fiquei grudado no caixote, o touro saiu correndo para a arena'', conta o peão.
Mineirinho tem 32 anos, mas na época do acidente fazia cinco meses que estava casado. Ele quebrou a segunda vertebra lombar.
Os médicos que o atenderam em Ribeirão Preto (SP) disseram que a chance de voltar a andar era de zero por cento.
Durante seis meses, o peão ficou imobilizado numa cama. Com força de vontade, os primeiros passos para a recuperação começaram quatro anos depois, com a ajuda de perna mecânica e andador.
''Fui me fortalecendo. Há três anos, eu comecei a andar com uma bengala. Se existir milagre esse foi um deles. Atribuo a Deus e à minha força de vontade a minha recuperação. Sempre pensei que se algo semelhante acontecesse comigo não suportaria. Hoje tudo já é coisa do passado. Considero como sendo mais um dia que passou na minha vida'', avalia Mineirinho, que ressalta o apoio da família na recuperação.
''Sempre conto para as pessoas que atrás da minha nuca no brete tinha um ferro. Se tivesse batido a cabeça nele não estaria aqui para contar a história para vocês'', lembra Mineirinho, que trocou três motos na casa em que mora no valor de R$ 60 mil.
Apesar de ter se tornado tropeiro, a emoção dos rodeios ainda desfila na cabeça de Mineirinho.''O peão não pode competir por diversão. É um ganha pão. A emoção vem com o decorrer do rodeio. Ganhar um carro ou uma camionete é importante, mas o dinheiro vai embora. O que fica é o currículo da gente, que ninguém tira'', compara.
Algumas festas oferecem seguro de vida para os peões, o que não é uma regra. ''Quando caí do boi, fazia cinco dias que tinha terminado o seguro de um rodeio em Jaú, com validade de 30 dias'', destaca Mineirinho, que gastou cerca de R$ 12 mil numa cirurgia, acrescentando que alguns peões pagam o próprio seguro.
Na pequena Perobal, Mineirinho é conhecido também por sua habilidade ao volante.
Por causa dos problemas nas pernas, ele dirige com o auxílio de dois pedaços de madeira para acelerar ou frear o carro.
''Hoje tenho a melhor tropa de animais de rodeio do Paraná e não sinto falta de montar mais. Me realizei como peão. Quando saí da fazenda, onde morava, eu tinha uma calça e uma botina. Tudo o que tenho, ganhei no rodeio'', diz Mineirinho, olhando ao redor de si.





