Tudo o que se faz é ilegal, imoral ou engorda
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de novembro de 2005
Leandro Quintanilha<br> Agência Estado 
São Paulo - Caro leitor, queira, por gentileza, responder mentalmente o seguinte questionário: Você se exercita pelo menos três vezes por semana? Já viu o novo filme do Fernando Meirelles? Separa o lixo reciclável? Escreve corretamente? Mantém uma dieta balanceada? Faz trabalho voluntário? Dá a devida atenção às crianças? Frequenta as reuniões do condomínio? Passa sempre fio-dental? Dorme oito horas por noite? Tsc, tsc, tsc.
Ei, acalme-se. O trecho acima foi deliberadamente concebido para fazer com que se sinta culpado. Mas o que vai ler daqui para baixo pode redimi-lo de parte desse seu martírio íntimo.
Para começar, uma informação importante: se respondeu com um tímido ''não'' à maioria das questões apresentadas, são grandes as chances de que você seja uma pessoa... normal. E, caso tenha se sentido culpado ao perceber que, poxa, poderia se esforçar mais, cuidado você pode ser vítima do que vem sendo chamado de neopuritanismo, a pressão social contemporânea para que você seja correto, competente e bem-sucedido em todas as esferas da vida.
Obviamente, ninguém consegue. Resultado: como na música de Erasmo e Roberto Carlos, tem-se a impressão de que tudo o que se faz é ilegal, imoral ou engorda. Politicamente incorreto.
No primeiro capítulo da novela ''Prova de Amor'', em exibição pela Rede Record, a protagonista Clarice (Lavínia Vlasak) dá uma bronca na irmã por largar uma garrafa plástica na praia. Não satisfeita, a moça, que faz mestrado em Educação Ambiental e é voluntária numa Organização Não-Governamental (ONG), aborda um desconhecido e lhe passa um sermão por conta de uma latinha de cerveja atirada na areia. Pense bem, deve haver alguma Clarice na sua vida. Algumas.


