Sai uma pizza mensalão e outra escândalo dos Correios, com bastante recheio de atividade pública e relações da vida privada. Ao redor do banquete, os comensais trocam farpas e acusações. A festa nem bem começou e alguns já tentam prever onde vai terminar. ''Tudo acaba em pizza!'' é um expressão tirada da picardia do futebol, em 1964. Depois de uma discussão entre os cartolas do Palmeiras, a confusão terminou na santa paz.
No dia seguinte, o repórter palmeirense Milton Peruzzi escreveu na Gazeta Esportiva: ''Guerra do Palmeiras termina em pizza''. A partir daí, a frase entrou para os anais da política.
O londrinense ainda recorre à frase ao lembrar do escândalo AMA/Comurb, que recentemente teve o prazo prescricional interrompido para o ajuizamento de novas ações por atos de improbidade administrativa, eventualmente ocorridos na gestão anterior do prefeito cassado, Antonio Belinati.
''Inicialmente, terminar em pizza na política é um termo vinculado à impunidade. É um conceito firme no inconsciente coletivo da massa dos trabalhadores, que sentem que a justiça não foi feita. Isso é forte no imaginário popular. As pessoas confundem o estado com a extensão dos interesses privados. No país, a elite política mantém e legitima esse pensamento, se apropriando do estado e dos seus órgãos, como se fossem a extensão de suas propriedades'', analisa Cezar Bueno, professor de Sociologia Política e Jurídica da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Londrina) e da Unifil.
O professor acrescenta que essa associação do imaginário popular é real para a elite e o próprio Direito, que alimenta algumas brechas jurídicas para o favorecimento ilícito.
Bueno segue a trajetória histórica marcada pela incapacidade da sociedade em separar a vida privada do estado. Uma herança que considera lusitana, existindo uma descrença grande no estado. O sociólogo atrela a esse detalhe, a afirmação de que a corrupção, que tem como fundamento uma elite que a lei não alcança o braço, mantém em pé o conceito popular de que tudo acaba em pizza.
Para que outros mensalões, escândalos dos Correios ou AMA/Comurb não sejam empurrados goela abaixo do cidadão, Bueno aponta o exercício dos direitos constitucionais. ''Se num determinado momento, o Belinati (Antonio Belinati) esteve mais próximo da execração pública é porque a sociedade se manifestou. Quando a sociedade se afasta, esse processo corre no anonimato, podendo ser prescrito, favorecendo a corrupção. A situação só mudará se estivermos dispostos a ir para a rua protestar'', acredita.
Bueno não ameniza a gravidade do momento político brasileiro, lembrando que, apesar da bandeira da moralidade ostentada pelo PT ter sido manchada pelas últimas denúncias, a sociedade é maior que um partido. ''A nossa sociedade hoje está em crise, tem problemas. Porém, jamais vai criar um problema que não possa resolver, sob pena de que não poderá sobreviver. É um momento importante para o próprio PT. Se o partido estiver disposto a admitir os erros e de fato recuperar os princípios políticos e éticos que justificaram a existência do partido'', afirma o sociólogo.
Bueno enxerga através do jargão ''tudo acaba em pizza'', o século 18 abraçado à busca da liberdade. Em seguida aparecem os séculos 19 e 20, período em que não bastava ser livre. Era preciso ter.
Chegamos ao século 21, onde a ganância e a vaidade estão parindo os personagens da sociedade do espetáculo.''São contradições inaceitáveis. Para sobreviver em sociedade, que tem milhões de pessoas passando fome, alguns gastam uma fortuna, fazendo festa de aniversário de cachorro só para aparecer. Hoje, as pessoas pagam qualquer preço e movem todos os meios lícitos e ilícitos para isso. Até onde a gente vai?'', questiona o sociólogo.
Sem diminuar o peso das denúncias do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), ele confunde a opinião pública ao se vestir com o terno de bom corte do bandido-herói. Trajado a rigor, Jefferson entrou para o mundo dos espetáculos, com direito até a uma canja no programa do apresentador Jô Soares. Haja nervos de aço...(F.L.)

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