Três dias de fúria
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Passados quase 50 anos daquele 8 de dezembro em que Curitiba viu a cidade ser revirada por manifestantes dispostos a quebrar o que surgisse pela frente, as explicações para o episódio que ficou conhecido como a Guerra do Pente variam. A insatisfação com a política estadual aliada ao descontentamento com a instabilidade econômica do país e a xenofobia em relação à comunidade árabe são alguns dos fatores apontados na tentativa de entender como a briga entre um comerciante sírio-libanês e um freguês policial militar que comprava um pente acabou resultando em três dias de fúria no Centro da Capital.
O palco inicial da quebradeira foi a Praça Tiradentes, para onde convergiam, em 1959, as principais linhas do transporte coletivo urbano da capital e Região Metropolitana, e onde concentrava-se uma porção de lojas gerenciadas por imigrantes de origem árabe, entre outras. Era um final de tarde, de uma quinta-feira, e muitos aguardavam por ali os ônibus que os levariam para casa depois de mais um dia de trabalho quando viram o policial militar ser jogado na calçada pelo dono de uma das lojas.
O subtenente teve uma perna quebrada e as pessoas que assistiram àquilo ficaram revoltadas. Foi o estopim de uma reação violenta por parte da população, explica o professor de História do Brasil e ex-reitor da Universidade Federal do Paraná, Carlos Roberto Antunes dos Santos. Ele é autor de uma pesquisa sobre o episódio e pretende publicar um livro no ano que vem, por ocasião do cinqüentenário da Guerra do Pente.
Segundo o professor, a revolta popular iniciada na Praça Tiradentes foi um fato inesperado porque Curitiba não tinha um histórico de manifestações e revoluções até 1959. E de acordo com Antunes, a insurreição pode ser entendida à luz do contexto político e social da época. O período era marcado pelas realizações do governo Juscelino Kubitschek, com a construção de estradas e da nova capital federal, que por sua vez aumentaram muito a dívida externa do país. Era uma euforia econômica mas com conseqüências, explica Antunes.
No Paraná, o governo Moisés Lupion vinha perdendo credibilidade por conta de denúncias de corrupção e autoritarismo, aliadas às queixas generalizadas quanto ao alto custo de vida decorrente da inflação. O governo estava ficando cada vez menos popular, aponta o pesquisador. Para aumentar a arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o governo havia lançado a campanha Seu talão vale um milhão, em que notas fiscais podiam ser trocadas por cupons para concorrer a prêmios pela loteria federal. Porém, a lei não obrigava o comerciante a emitir a nota fiscal em caso de valores baixos.
Não tinha como dar nota. É como se fosse hoje um real ou 50 centavos. Mas o rapaz insistiu e começou a xingar o meu marido, a fazer grosseria. Na hora que ele caiu e quebrou a perna chegou muita gente, lembra Charife Najar, mulher do comerciante Harmed Najar, proprietário do Bazar Centenário, onde ocorreu a briga. A gente não fez nada de errado. Ficaram revoltados porque a gente trabalha e tem alguma coisa, avalia Charife atualmente.
No depoimento dado ao documentário A Guerra do Pente o dia em que Curitiba explodiu, dirigido por Nivaldo Lopes (o Palito), o comerciante contou ter sido agredido verbalmente pelo freguês enquanto uma funcionária da loja emitia a nota fiscal pedida pelo subtenente da Polícia Militar, Antonio Tavares. Me chamou de burro duas vezes, xingou minha mãe, não agüentei, justificou Najar.
Durante a pesquisa para o documetário lançado em 1986, Palito não teve dificuldades para encontrar quem lembrasse da história. Todas as pessoas com quem eu conversava tinham alguma relação com o fato: o pai, um avô. Era um episódio conhecido na história de Curitiba, conta o diretor.
A confusão seguiu por mais dois dias. As polícias civil e militar não conseguiram conter os manifestantes, e o exército foi chamado para controlar a revolta que envolveu estudantes, militantes políticos e curiosos. Espalhou-se como fogo em pradaria, resume Elisio Marques, um dos revoltados na época.
Marques tinha 14 anos e lembra que participava de uma manifestação promovida pela União Curitibana dos Estudantes Secundaristas na Praça Zacarias, quando a revolta estourou. A notícia deslocou-se e nós fomos para lá. Não houve uma preparação, apenas a disposição natural dos estudantes para a agitação, que se juntou à manifestação popular, recorda o ex-insurgente.
Marques lembra ainda que, a trasmissão da revolta via rádio, atraiu a atenção de moradores dos bairros mais distantes e de municípios da Região Metropolitana. Para Marques, aquela foi a primeira manifestação popular realizada na Capital contra um estado de coisas. A Guerra do Pente foi a bisavó de todas as manifestações que vieram a acontecer em Curitiba, afirma.


