Trem das Onze. Doze, treze...
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Marcos Martins<br>Equipe da Folha 
No samba de Adoniran Barbosa ele é das onze. Mas no ramal que passa por dentro de Curitiba, o trem é do dia inteiro. Passa às 11, 12, até meia-noite e 5 horas da manhã. Conviver com a companhia de locomotivas e vagões é aprender a habituar-se ao barulho e também com a tremedeira, que tira tudo do lugar. Mexe quadro, janela, prato. Parece terremoto. Dá impressão que a casa vai cair, conta a aposentada Ana Delicia Rosa, 72 anos, moradora do Alto da XV há 38 anos. Para ela, o pior momento é o trem das 5 horas da manhã, o primeiro do dia. Aqui não precisa de despertador, a buzina do trem que passa cedo acumula essa função, brinca.
A professora Cristina Estela Marques não estranha mais. Mas as visitas... Quando recebo alguém aqui em casa eles ficam assustados, não conseguem entender como eu consigo morar aqui, revela.
Para o comerciante João Olímpio Sotto Maior, não adianta reclamar. Já fizeram abaixo-assinado para tirar o trem, para diminuir o apito, tentaram de tudo, mas não adianta. E toda vez que aparece algo na mídia sobre esse assunto, depois eles buzinam mais alto ainda. O jeito é se acostumar, conta.
O ramal Rio Branco, que corta o Alto da XV e outros bairros da região, conta com seis trens - três carregados e três vazios, que fazem o trajeto de ida e volta pela linha. Entre os produtos transportados pelos vagões estão clinquer (um material utilizado para a fabricação de piche), além de cimento, trigo e fa-
relo de trigo.
Vão os produtos, ficam as histórias, principalmente de acidentes. Entre os que ficaram na memória, o comerciante João Olímpio relembra de um ocorrido próximo a um shopping do bairro. Na ocasião, a locomotiva teria saído dos trilhos e se arrastado por mais de 70 metros. Se fora dos trilhos demorou tanto assim para parar, imagine se estivesse em cima? Se desviasse para o lado das casas, não haveria tempo hábil para fazer nada, era capaz de levar tudo, prevê.
João sugere alterações nas placas indicativas, como tentativa de amenizar os riscos do local. Acho que podia haver uma sinalização mais específica, para que ele não apitasse tanto. Podia ser instalado, por exemplo, um painel, com os horários em que o trem passa, colocado junto com alertas de que aquela hora ele vai passar. Algo luminoso, que piscasse avisando. Isso evitaria tanto os acidentes como o incômodo do barulho da buzina, que poderia ser diminuída, propõe.
Mas no outro trilho da discussão está quem goste da movimentação de locomotivas e vagões. A comerciante Sandra Mara Rocha mora na região há quatro anos e só achou muito estranho quando se mudou. Hoje, defende o trem. Incomoda um pouco, mas é uma coisa que quase não se vê mais, que faz relembrar o tempo que eu era criança, a época dos causos da Maria Fumaça que os avós contavam. Acho importante manter essa história viva de alguma forma, argumenta. Opinião semelhante à da auxiliar de serviços gerais Renata Pereira, 27 anos. Sempre levo meu filho, de 3 anos, na sacada do apartamento, para dar tchau pro trem. Quando os sobrinhos estão aqui, divertem-se também. Se a criançada gosta, tá valendo, resume.


