Prateleiras abarrotadas de livros, revistas e coleções sobre o Paraná e Curitiba tomam conta de uma parede da casa da jornalista Maí Nascimento, 57. A minibiblioteca reúne mais de 300 títulos dispostos sem muita organização, o que não atrapalha de serem constamente consultados por ela e pelo marido, o jornalista e escritor Dante Mendonça. "O meu interesse nesse material começou mesmo por dever de ofício", revela a curitibana, que foi convidada para trabalhar na Casa da Memória Romário Martins, em 1979, e, dali para frente, desenvolveu uma paixão pela história do Estado e da cidade.
"A primeira coisa que fizemos foi um levantamento do material. Daí constatamos que a história de Curitiba preservada ali era pouquíssima, mal contada e numa situação precária", lembra ela que coordenou a campanha "Não joque fora seu passado, traga que a gente guarda" feita pela Romário Martins. "A população nos trouxe muitas coisas interessantes, como fotografias de família, e começamos a fazer uma ligação com os fatos e a compor uma história diferente da cidade. A história oral era saborosíssima", completa Maí.
"Até o Papa João Paulo II vir a Curitiba, os imigrantes escondiam um pouco sua história de vida. Depois da vinda dele, na década de 1980, todo mundo passou a assumir sua etnia com orgulho", conta a jornalista, acrescentando que a Casa da Memória tem papel importantíssimo na publicação da história curitibana, como a produção de um material sobre a história dos bairros da cidade e a série Boletim Informativo da Casa Romário Martins, que existe até hoje.
"O primeiro boletim foi de 1950, tinha o título ‘Desembrulhando as Balas Zequinha’ e contava como a bala foi uma febre entre a piazada, que trocava as figurinhas e brincava de bafo em frente aos cinemas", detalha ela, que é dona de uma coleção preciosa da revista LeitE QuentE, dez volumes publicados entre 1989 e 1992, que traziam ensaios bem-humorados sobre o caráter, comportamento e a história de Curitiba. "O primeiro foi ‘Nossa Linguagem’ escrito pelo Paulo Leminski, atribuindo nosso jeito de falar aos imigrantes europeus. No segundo, ‘Passe a cuia tchê’, o Arthur Tramujas Neto traz a tese de que o sotaque veio dos tropeiros, dos gauchos (lê-se gáutchos)", relata.
"O LeitE QuentE foi um sucesso, não dava para quem queria. A tiragem era pequena também, de mil exemplares", acrescenta Maí Nascimento, destacando outras edições, como as escritas por Rosirene Gemael, sobre o dia que nevou em Curitiba e desencadeou a primeira festa popular na cidade, e "A Cidade sem Mar", onde Manoel Carlos Karam questiona "para que o banho de mar, se a gente tem o banho de lua à beira de Curitiba". A jornalista ainda guarda com zelo as revistas "Memória da Curitiba Urbana" do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) e a reedição de "Joaquim", editada por Dalton Trevisan e com ilustrações de Poty Lazarotto, nos anos 1940.
"Só conheço uma pessoa que tem o mesmo interesse que eu pelos livros sobre o Paraná e é dono de uma biblioteca considerável. A última aquisição dele foi as atas da primeira Câmara de Curitiba, de 1693, que foram compiladas há muitos anos por Francisco Negrão e nos fala sobre o desenvolvimento da cidade. Foi Negrão que também escreveu sobre a genealogia paranense", informa Maí, que considera suas melhores coleções o "Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná", que teve material reunido e escrito por Emerlino de Leão e publicado pelo Instituto Geográfico e Etnográfico Paranaense, em 1994, e a "História do Paraná" da editora Grafipar.

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