Numa semana em que Londrina foi chacoalhada por graves denúncias envolvendo a única clínica psiquiátrica credenciada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na região, a FOLHA procurou profissionais da área para investigar questões tão preocupantes quanto: por que cada vez mais crianças sofrem de transtornos mentais? Quanto o estilo de vida moderno repercute na psiquê dos mais pequenos? O sistema de saúde é capaz de oferecer um tratamento desde a infância que garanta uma vida adulta saudável?
  O aumento da procura de crianças por centros especializados indica que a demanda cresce mais rápido do que a capacidade de o sistema de saúde absorvê-la. Em Londrina, além dos centros de atenção psicossocial (Caps) voltados para adultos e dependentes químicos, há um somente para o atendimento de crianças e adolescentes – o Caps-I –, que deveria receber apenas casos graves mas atende atualmente 200 pessoas com os mais diferentes transtornos.
  Mãe de criação de um sobrinho de seis anos, a senhora de 66 anos traz o semblante cansado de quem exauriu quase todas as forças tentando ajudar o guri a superar seus dramas interiores. Entra para a primeira consulta puxando por uma mão o menino e com a outra se agarra ao último fio de esperança na luta contra um problema que já interfere na afeição que sente pela criança. ‘‘Acho que é de família. A avó dele é possuída, a mãe é um depósito de demônios e com ele não tinha como ser diferente’’, desespera-se, admitindo que pensa entregar a criança para adoção.
Alívio
  Ela lembra que o menino engatinhou ao quatro meses e aos oito deu os primeiros passos. Mas logo também vieram as dificuldades. ‘‘Ele sempre foi agressivo, possessivo. Na creche não ficou porque batia nas outras crianças.’’ Medicamentos tiveram pouco efeito. Os únicos momentos de concentração são passados em frente ao computador, que o menino domina sem saber ler ou escrever. ‘‘Ele é carinhoso, diz que me ama, mas no minuto seguinte já me morde, xinga. Não aguento mais’’, confessa.
  A fase do desespero já foi superada por uma outra mãe de 30 anos, cujo filho, de 10, não consegue ficar sentado mais do que alguns segundos. Enquanto aguarda mais uma consulta no Caps-I, ela conta que o garoto deu o primeiro grito de socorro aos três anos, quando mordeu 20 crianças num único dia na creche. ‘‘Pensava que ele era uma criança arteira, desobediente, triste. Tanto que batia nele quando aprontava’’, admite.
  O tratamento iniciado há cinco anos trouxe algum alívio mas, mesmo com três comprimidos diários, o menino não come direito, dorme pior ainda e não frequenta as aulas regulares. Ele já quase ateou fogo em casa, por pouco não cortou uma orelha do pai e enfrenta meninos mais velhos na rua.
  ‘‘Meu medo é ele virar drogado, pedófilo ou matador quando crescer, porque não controla as próprias emoções’’, comenta. O pouco alento da mãe vem dos encontros com outras mães realizados semanalmente no Caps-I: ‘‘a gente conversa, escuta as dificuldades dos outros e tenta entender o que está acontecendo em nossa vida’’.

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