TRANSPLANTE - A diferença entre a vida e a morte
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de abril de 2008
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Ser solidário num momento em que a dor é apalpada em si mesmo é um esforço primordial para que ocorra a doação de órgãos. Isso porque os familiares precisam autorizar, em pouco tempo, que se faça a retirada de órgãos sadios de um ente querido cuja morte encefálica foi constatada. Do outro lado, centenas de pessoas aguardam a doação de um órgão compatível que possa lhe resgatar uma vida normal. Tema delicado e urgente, a doação de órgãos é lidar diretamente com a vida e a morte, enxergando esta última como a esperança de vida para muitas pessoas.
Assim, o empresário André Oms, 30 anos, e sua família decidiu ser o destino do corpo da mãe, a dona de casa Carmem Oms, que morreu aos 53 anos, em Curitiba, vítima de um acidente vascular cerebral. Dona Carmem faleceu no dia 4 de abril e, dois dias depois, possibilitou o ''renascimento'' de, talvez, seis pessoas que aguardavam a doação de órgãos.
''Após constatada a morte cerebral, toda família decidiu pela doação. Permitimos que fossem doados o coração, o fígado, os rins, as córneas e o pâncreas. Minha mãe nunca havia comentado ser uma doadora, mas temos a convicção de que era o que ela queria, porque era muito generosa, nunca negou nada a ninguém'', disse André.
''É um conforto saber que o coração dela continua batendo, que ela ajudou muitas pessoas. Queremos conhecer a pessoa que recebeu o coração da minha mãe, porque o coração é um vínculo forte'', enfatizou André Oms.
O receptor do coração de dona Carmem é o sericicultor José Castanheiro, de Nova Esperança (35 km a noroeste de Maringá). O senhor, de 59 anos, sofria de miocardiopatia chagásica crônica dilatada e, segundo o cirugião cardíaco da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba Evandro Sardeto, provavelmente não resistiria mais um dia com o seu coração doente e agigantado.
Seo José ficou uma semana internado na UTI da Santa Casa como paciente emergenciado, passando a ser o primeiro da fila de espera da instituição. ''O paciente ía morrer. O fígado dele não funcionava bem, a pressão era baixa mesmo tomando os medicamentos, a doença já estava em fase terminal. O transplante era única solução de tratamento para ele continuar vivendo. Foi um milagre aparecer um doador tão rápido'', comemorou o cirurgião que realizou o transplante, juntamente com a equipe do hospital, em duas horas. Em média, esse procedimento cirúrgico dura de quatro a seis horas.
''A cirurgia foi tecnicamente perfeita, não teve intercorrências. Ele vai ficar cerca de duas semanas no hospital, para que façamos o controle com drogas imunossupressoras, só depois liberamos para ele voltar para casa'', explicou Sardeto, completando que José Castanheiro terá que tomar, para o resto da vida, remédios para evitar a rejeição do órgão e fazer acompanhamentos períodicos no hospital. Os medicamentos diminuem a imunidade do organismo o que requer cuidados especiais de higiene e mudanças de comportamento do transplantado.
''No caso dele, foi o melhor tratamento possível. Em dez anos, cerca de 20% dos portadores de miocardiopatia sobrevivem à doença, mas quem se submete ao transplante ganha uma sobrevida de 50%. Depois de um mês, quando os ossos estarão cicatrizados, ele terá sua capacidade funcional recuperada, podendo voltar às suas atividades normais, sem restrições'', prometeu Sardeto, pontuando que o maior índice de rejeição acontece nos primeiros seis meses após o transplante, mas pode nem chegar a acontecer. Com o seo José, o cirurgião soma 61 transplantes de coração realizados na equipe da Santa Casa.
Vida nova
Em menos de 24 horas após o transplante, seo José se mostrava bem disposto, tanto que conversou com a equipe da FOLHA, na UTI do hospital. ''Estou me sentido bem e muito feliz. Ontem (7 de abril, dia do transplante), fiquei muito mal, o dia inteiro em agonia, e agora tudo passou. Consegui até dormir'', contou ele.
''Não sei se vou trabalhar com serviço pesado, mas acho que plantar uns pés de alface vou poder. Tenho uma netinha de dois meses e tudo que eu queria era ver ela crescendo e correndo na minha chácara'', disse José Castanheiro, com um sorriso no rosto.
Segundo a filha, Cristiane Castanheiro, 29, o pai adquiriu a doença ainda jovem. ''Mas só foi diagnosticado, há cinco anos, depois que ele fez exames para ser doador de sangue. Até aquele momento ele não sentia nada, só aí é que o pai começou a sofrer'', lembrou ela, que acompanhou seo José em Curitiba. A mãe e a irmã chegariam no dia seguinte ao transplante.
''O médico dizia que só restava três anos de vida para ele. O pai foi ficando cada vez pior, às vezes não conseguia dormir, nem comer, foi internado. Mudamos para outro médico, em Maringá, que nos falou da possibilidade do transplante. Viemos para cá e em menos de uma semana conseguimos o coração. Foi tudo muito rápido'', completou.
''Antes de começar o transplante, o médico conversou comigo. Eu só conseguia olhar para as mãos dele e pensava que o futuro do meu pai estava naquelas mãos. Estou muito esperançosa que tudo corra bem'', desabafou Cristiane, que agradece a doação do coração que salvou a vida do pai.
''Muitas mortes serão soluções de outras vidas. Mas é preciso um gesto grande de amor de outras famílias. O que é dor para algumas é felicidade para outras'', raciocina Cristiane.


