Transformando dor em arte
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
Artista plástico desde os 16 anos, com diversos trabalhos publicados na imprensa curitibana, Carlos Chá passa agora por um momento em que sua produção artística se revela como um meio para registrar sua transformação pessoal e, através dela, transformar também outras pessoas. Chá, que está com 37 anos, recebeu um diagnóstico de leucemia em janeiro deste ano. No período em que esteve internado no Hospital Nossa Senhora das Graças, registrou no papel em nanquim e aquarela seu processo de recuperação. Os desenhos, reunidos sob o título Células de Amor, estão expostos no salão principal do Hospital, na Rua Alcides Munhoz, 433, Mercês, até o final de julho. E uma série mais recente da mesma coleção está numa mostra que teve início esta semana no Café com Prosa, na Avenida Sete de Setembro, 4.518, Batel. O trabalho também está no endereço eletrônico www.cha.art.br.
Folha de Londrina - Quando começou o tratamento e esse novo trabalho?
Carlos Chá - O tratamento vem desde janeiro quando apareceu o quadro (de leucemia). Estou morando em Ponta Grossa e vim pra Curitiba, por ser um grande centro para esse tipo de tratamento. A primeira coisa foi ir para a UTI porque era um quadro bem grave. Naquele período da UTI eu comecei a desenvolver esses desenhos. Porque você fica recluso ali, é totalmente escuro, sem janela, sem nada, então eu fiquei meditando e ao mesmo tempo fazendo alguns rascunhos. Era uma maneira de fazer uma fotografia da alma, como uma terapia. Então cada dia saía um desenho diferente, ou estava muito explosivo ou muito pacífico. Aí eu comecei a perceber que conforme estava o meu grau de pensamento, de ansiedade, de amor àquele tratamento o desenho variava. O mais legal é que fui mostrando para as pessoas que entravam ali na UTI, médicos, enfermeiros, a menina da faxina, e então todo mundo começou a interagir com o desenho. Achei divertido isso de alguma maneira: tirar uma foto da alma, passar para as pessoas e elas conseguirem identificar o que estava acontecendo. Tinha muita coerência quando eu mostrava e elas identificavam. Isso me incentivou a fazer uma produção ali dentro. Aí veio a fase de sair da UTI, de ir para o quarto para o tratamento. Eu vi que as médicas começaram a se entusiasmar muito com os desenhos. Comecei então a fazer um trabalho mais elaborado, num papel melhor.
Folha - Você ficou na UTI quanto tempo?
Chá - Cinco dias.
Folha - Como surgiu a idéia da exposição dentro do hospital?
Chá - A gente falou: poxa, já que a produção está tão grande porque não fazemos uma homenagem às pessoas que estão me ajudando no tratamento e fazemos uma exposição aqui no hospital para os funcionários, os médicos? A gente conversou com a diretoria, eles apoiaram, foram muito legais nesse sentido, e aí surgiu uma coisa inédita, que é um paciente em tratamento fazer uma produção e em vez de sair daqui com a produção embaixo do braço, expor ela durante o tratamento aqui mesmo. Foi até legal que quando inaugurou a exposição, no dia seguinte eu ganhei alta. Disseram: agora você já está bom.
Folha - Como é extravasar através da arte os sentimentos que surgem de um tratamento difícil como esse?
Chá - A arte já é a minha função, é o meu trabalho. Trabalho diariamente com desenho, então a arte já é uma necessidade. É uma necessidade do artista extravasar com aquilo que você sabe fazer. E o legal de tudo isso foi que com a arte, eu consegui passar uma mensagem. Todo o processo que eu passei aqui dentro teve uma grande descoberta. Foi vivenciar toda a unidade dos funcionários do hospital. O médico, a enfermeira, o pessoal da cozinha, a faxineira, todos têm uma grande função aqui dentro. Se um não fizer o seu trabalho bem feito, o outro não faz sentido. Parece uma orquestra, todo mundo fazendo a sua parte sem erro e com muito amor. Quando um negócio tem amor funciona de uma maneira diferente. Eu tenho um trabalho de ilustrar a Bíblia, versículo por versículo. E vi que esse amor que tem aqui dentro tinha tudo a ver com uma passagem da Bíblia, que é a parte do Eclesiástico. Comecei a ligar tudo o que eu estava vivenciando aqui dentro, com as passagens da Bíblia e com os desenhos que eu estava fazendo. Então a exposição toda tem essa mensagem: ''sem amor eu estou prejudicando a minha função em algum momento''. A doença é o quê? É quando você fica amargo, triste e não vê amor nas coisas. Você perde o foco da beleza da vida. E foi o que aconteceu comigo. Agora eu preciso me tratar disso, corrigir o que eu fiz com o meu corpo e, principalmente, corrigir a minha visão.
Folha - Essa fase do seu trabalho é então uma continuidade do que você já vinha fazendo mas com uma nova carga emotiva?
Chá - Teve um peso melhor, saíram as células. Eu estou aqui dentro curando as minhas células e de maneira intuitiva comecei a desenhar células. Na hora que eu vi, eu estava aqui curando células e elas começaram a sair de dentro de mim cada vez mais bonitas. A partir do momento que eu estou desenhando células sadias, bonitas e que emocionam as pessoas, é sinal que dentro de mim esse processo também está acontecendo.
Folha - A assinatura com uma gota de sangue começou no hospital?
Chá - Foi, porque toda a hora eu tinha que furar o dedo para ver como é que estava a taxa de açúcar. E eu tentei levar tudo pelo lado legal quando estava aqui dentro, a dor, a injeção, porque aí eu vi que se tornava mais fácil. Isso daí é um truque que vale para a vida toda, para todas as pessoas. Você amenizar esse sofrimento torna tudo mais fácil. Então a gotinha é um sinal disso daí. É um tratamento difícil, você tem que ter muita coragem, muita força de vontade, porque o tempo inteiro você está experimentando coisas que na tua vida você não experimentou, reações diversas. Mas se você encarar isso e lembrar sempre desse amor, você não olha mais como um mal e sim como um pedacinho de Deus ali agindo em cima de você, então fica mais fácil.
Folha - Como está sendo o retorno do público?
Chá - É fantástico. Está registrado no livro de visitantes. É muito profundo. Tem gente que vem de longe porque ouviu falar, paciente que estava completamente desanimado e mudou a maneira de ver o mundo. A gente fica até surpreso: como uma coisa tão pequena pode tocar tanto? Mas eu sei, é porque é feito com amor. Enquanto eu estou me curando, estou ajudando outras pessoas a se curarem também.


