‘‘Venha provar minha senhora, é uma delícia!’’. Ao ouvir a frase, a reação é imediata. No pequeno intervalo do trabalho, a manicure Marli Pimentel aproveita para realizar um ‘‘sonho’’: o sonho de comer um sonho. Mas não qualquer um. Tem que ser o de nata, vendido no carro que costuma passar próximo do salão em que trabalha. ‘‘Com esse sabor eu só acho aqui’’, conta.
  A presença dos carros que vendem diversos produtos já virou tradição em várias cidades. Em Curitiba não é diferente. Quem mora nos bairros têm à disposição, na porta de casa, vendedores de churros, ovos, frutas, pamonha, água sanitária, gás. Tem também amolador de facas, desamassador de panelas, sapateiro. Uma lista longa, que vem acompanhada dos inconfundíveis anúncios feitos pelos alto-falantes. E na hora que os ‘‘traga a sua vasilha’’, ‘‘trocamos cabo e borracha da panela de pressão’’ e ‘‘é o puro creme do milho verde’’ ecoam pelas ruas, não há indecisos: é gostar ou odiar.
  ‘‘Acho um saco! E não adianta falar nada que ele volta mesmo assim’’ reclama a babá Maria Neide Laranjeira. ‘‘Parece que ele escolhe meu dia de folga, que eu aproveito para dormir até mais tarde, para vir aqui’’, lamenta o segurança Alceu Rodrigues. ‘‘Acho muito prático, você ouve o anúncio, aproveita que está perto e dá uma corridinha’’, opina a cabeleireira Marli. ‘‘É bastante divertido, porque o moço do churros começa ‘falar’ e minha filha de dois anos já se agita querendo o doce’’, conta a dona de casa Nair Ferreira, alheia às reclamações dos vizinhos.
  O ‘‘moço do churros’’, no caso, é Salvador Gonçalves, que já está na rotina há 17 anos. Nesse tempo, a pequena van já carregou ofertas de louça, peixe e sonho por vários bairros da capital, criando uma proximidade com os consumidores. ‘‘Percorro seis bairros, então a cada oito dias eu volto no primeiro que passei. E a vez que falha o pessoal já pergunta, ‘cadê o Salvador?’ Isso deixa a gente animado’’, conta.
  A partir de 2002 ele resolveu apostar nos churros, que em épocas boas rendem mais de 100 unidades vendidas por dia. Fritos e recheados na hora, os doces dão trabalho. ‘‘Tudo precisa estar bem limpo, então tenho que cuidar de vários detalhes. Mas vale a pena garantir a qualidade para o cliente’’, revela o ex-vendedor de sacas de café, que precisou buscar uma alternativa para o desemprego quando a empresa que trabalhava faliu. ‘‘Acho que fiz uma boa aposta. Não dá para ficar rico, mas garante o sustento da família’’, avalia.
  Outro segredo, segundo ele, é não exagerar no volume da mensagem. ‘‘Se for muito alto o povo reclama. Aí corre o risco de perder o freguês’’, alerta. É a mesma opinião do ‘‘homem dos sonhos’’, Rogério Scherer. ‘‘Eu deixo baixinho, aí quem tá passando por aqui já consegue perceber’’, explica.
  Há um ano ele estava desempregado e passou a percorrer as ruas da cidade anunciando os quitutes com doce de leite, chocolate, creme, nata e goiaba. Comprados de uma fábrica e recheados em casa, comercializar os sonhos requer, além de muita dedicação, algumas pitadas de planejamento. ‘‘Tem que ter uma idéia de quantos vão sair, senão fica velho e o povo não compra no outro dia’’, alerta.
  Mas tem quem não passe esse tipo de problema. Ex-artista de circo, Bento Cândido Ferreira corre as ruas do Xaxim a bordo do carro que faz propagandas de mercados, farmácias e panificadoras. Para gravar as mensagens, ele usa um programa de computador e a experiência acumulada em alguns anos atuando como radialista. ‘‘Já fiz ao vivo, com microfone, mas cansa muito a voz’’, relata.
  A jornada começa às 9 horas da manhã, o que gera alguns protestos de moradores que querem dormir até mais tarde. ‘‘Dependendo do horário você escuta um ‘vai passar pra lá seu chato’, aí tem que acelerar e ir embora. E já teve caso de gente reclamando que tinha gente doente em casa, ou criança pequena dormindo, aí eu pedi desculpas e parei de passar na rua’’, relembra Ferreira.
  Para evitar que isso vire rotina, ele respeita alguns locais. ‘‘Não passo em frente de escola, hospital nem igreja, para não atrapalhar. Quero ajudar as pessoas, levando ofertas de produtos mais baratos, não incomodar’’, explica. ‘‘A gente trabalha para oferecer comodidade para as pessoas, aí elas só precisam sair na porta de casa para comprar o que têm vontade. Se isso não acontece, perde o sentido do serviço’’, argumenta Salvador Gonçalves, antes de seguir rua abaixo, alardeando os ‘‘churros quentinhos, de chocolate e brigadeiro’’.
  Só não pode passar em frente à casa da babá Neide, nem do segurança Alceu. Parece que hoje eles não vão querer...

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