As transformações são parte natural do mundo dos negócios. A grande maioria das empresas vive constantemente em busca de novos serviços e produtos. Algumas se reinventam completamente ao longo de sua trajetória. Mas como tratar a questão da inovação quando o maior capital de um empreendimento é a tradição?
  Dono de uma história que começou em 1904, o Stuart está de cara nova. Há mais de um mês, quem passa pela frente do bar mais antigo de Curitiba – e um dos mais antigos do Brasil – nota algumas diferenças. Além das mudanças na fachada, que foi reformada, e no salão interno, quem andar por ali aos sábados vai se deparar com apresentações de músicos de tango. Segundo o proprietário do bar, Dino Chiumento, esta é a primeira vez que a música ao vivo invade o Stuart em todos estes anos.
  O responsável por estas mudanças é o empresário argentino Amadeo Castignani, que há alguns meses tornou-se sócio de Dino no Stuart. Há 10 anos em Curitiba, ele conta que observava o bar ‘‘meio parado’’ e visualizou ali uma oportunidade de realizar um empreendimento gastronômico e cultural.
  O pacote de mudanças inclui ainda mesas na calçada e um novo pavimento no local, onde seriam feitas apresentações de dança. A comida argentina aos poucos vai engordando o cardápio do Stuart, que já conta com empanadas e outras receitas da terra de Gardel. Em um futuro próximo, Amadeo espera transformar o ponto em um centro de gastronomia e cultura, com opções de pratos para todas as horas do dia e espaço destinado a exposições, vernissages, lançamentos de livros e outros eventos de cunho artístico.
  A freguesia aprova as mudanças. Segundo o professor universitário Emmanuel Appel, ‘‘em tempos de Mercosul, tango tem tudo a ver com Curitiba’’. Apesar de não saber dançar, ele aplaude a iniciativa. ‘‘As pessoas viajam pelo tango’’, diz. O engenheiro agrônomo Jorge Mryczka também não se aventura nos pistas de dança, mas gostaria de assistir às apresentações. Freqüentador do bar há mais de 20 anos, ele não teme que as mudanças afastem o público, muito pelo contrário.
  Mas nem todos aqueles que freqüentam bares tradicionais pensam desta forma. A aproximadamente 30 metros do Stuart está o Maneco’s Bar. Apesar de mais jovem (tem apenas 23 anos de existência), já tornou-se um ponto tradicional de Curitiba. O dono, Manoel Alves, já foi garçon no Stuart entre 1978 e 1984, mas pensa diferente do vizinho quando o negócio é mudança. ‘‘Se mudar muito pode perder a característica e daí os clientes vão embora’’, acredita Manoel. Segundo ele, todo ano é feita alguma pintura nova, mas discreta para não assustar a freguesia. ‘‘Não adianta voar muito alto, basta ver que bares novos têm vida curta’’, analisa.
  Os freqüentadores do Maneco’s também defendem a tradição. O empresário Carlos Kleiner acredita que uma reforma no bar seria como dar um ‘‘tiro no p钒. ‘‘O investimento seria violento e não valeria a pena’’, avalia. Freguês há 16 anos, ele acha perigoso modernizar, pois o local poderia perder o ‘‘clima de boteco’’.
  Outro freguês que não vê com bons olhos possíveis reformas no ambiente é o jornalista Cid Destefani. Especialista em memória visual, ele afirma que as pessoas podem perder a referência se alguma mudança for feita. ‘‘As coisas vão desaparecendo, se transformando e o cliente fica perdido’’, analisa.
  A gastronomia do Maneco’s é outro ponto forte. Mas mesmo neste setor as transformações são feitas lentamente. A cozinheira é a mesma de 23 anos atrás e quando um cliente sugere algum prato novo, ela acrescenta a novidade ao cardápio, mas sem excluir os quitutes tradicionais.

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