Prateleiras cheias e uma clientela fiel de anônimos e famosos. Esse é o cenário diário de uma sapataria tradicional de Londrina, iniciada pelo baiano Josias Fernandes de Araújo, na década de 60. O pai repassou o ofício às duas filhas, que mantêm o trabalho com conhecimento, determinação, esforço e boa dose de talento, além de uma atividade média de consertos, reparos e transformações de calçados, que oscila de 100 a 150 pares por semana.
  As ‘‘duas meninas’’ do seu Araújo comprovam todos os dias que a profissão de sapateiro ainda tem fôlego e que a indústria artesanal de calçados pode ser uma boa opção de negócio.
  Cristina de Paula Araújo Brasão, 37 anos, e Ana Lúcia Fernandes de Araújo, 44, mantêm a economia familiar com a arte manual, desde o final de 2004.
‘‘Pagamos todas as despesas mensais e ainda temos lucro’’, destaca Ana, que atua forte também na administração do negócio. Ela lembra que o investimento estimado em despesas (de manutenção, materiais e salário de um sapateiro auxiliar) fica em torno de R$ 2.400 a R$ 3.000.
  Cristina acompanhou o pai desde os 12 anos de idade e acabou se especializando em pinturas de sapatos e bolsas. ‘‘Aqui a gente sempre está fazendo arte’’, garante.
  A clientela masculina representa 20% da demanda, e o pedido mais constante, entre os homens, é pela recuperação das solas dos calçados. ‘‘Um investimento que sempre vale a pena, se o produto adquirido for de boa qualidade’’, confirma José Trindade Filho, cobrador de ônibus. Aos 68 anos, José diz que sempre apreciou bons sapatos, economizando para comprar modelos sociais de até R$ 150. Agora, preferiu mandar consertar, pagando no reparo cerca de 10% do valor de um novo e aumentando sua vida útil em aproximadamente um ano. ‘‘O salto estava danificado, troquei e fiquei com o sapato novo, mais uma vez’’.
  Já as mulheres, cerca de 80% delas, costumam buscar a troca de tacos em estilos sociais, a arrumação de bicos dos calçados, o corte de saltos e até a colocação de solados antiderrapantes em peças novinhas em folha.
  ‘‘A procura é grande desde que nosso pai iniciou o negócio e se estende até hoje, graças a Deus’’, destacam as filhas de Josias Araújo, que atuou durante 25 anos na Rua Souza Naves e depois se transferiu para a Rua Pará, quando morreu, em 2005, com 70 anos, em decorrência de complicações com doença de Chagas.
  Ana e Cristina garantem que valeu a pena terem trocado o Rio de Janeiro e Portugal por Londrina, para não verem fechadas as portas do empreendimento familiar que nasceu do sonho de seu Araújo, em agosto de 1961.
  ‘‘Sempre tivemos mais do que visão no dinheiro, destacamos principalmente o amor ao que fazemos, o carinho aos nossos clientes. Então, ficamos orgulhosas em ver que a herança deixada pelo nosso pai está sendo mantida. No hospital, antes de falecer, ele ficou feliz e sorriu, porque perguntou como estávamos nos virando aqui, sozinhas, e pudemos dizer, muito bem, pai’’, contaram emocionadas e com um brilho de saudade nos olhos.
  Para animar o clima de recordação, Ana, a filha mais velha, brinca:‘‘E pensar que tudo começou com um salário-criança, quando eu nasci’’. É que naquela época, em agosto de 1961, o Governo Federal concedia benefícios à família, que eram muito mais rentáveis do que o salário-maternidade de hoje em dia. Assim, seu Araújo juntou todas as economias, o salário-criança e sua experiência em fábricas de calçados. Abriu seu próprio negócio, fazendo dos sapatos o sustento da família por mais de 40 anos e promovendo o futuro de continuidade da pequena empresa, hoje, conforme as filhas, um bom negócio.

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