Trabalho de formiguinha
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Dizem que paixão é um sentimento passageiro, mas no caso de um grupo de voluntários de Londrina que se dedica a organizar e catalogar documentos antigos e históricos da cidade a emoção, supostamente efêmera, virou amor. "É por pura paixão que fazemos o nosso trabalho, diariamente, para que possamos contribuir com o resgate histórico da cidade", afirma Elenice Mortari Dequech, de 66 anos, bacharel em Direito, que há duas décadas realiza voluntariamente esse trabalho, denominado como "Grupo voluntário por amor a Londrina".
Tudo começou quando Elenice decidiu ocupar o tempo livre com algo mais produtivo, depois que os dois filhos cresceram. Por sugestão do irmão jornalista (João Paulo Mortari), ela apresentou-se no Museu Histórico de Londrina disposta a colaborar no que fosse preciso, ainda mais sendo filha, neta e nora de pioneiros. Foi aí que conheceu o arquivologista e técnico em museologia Amauri Ramos da Silva, de 47, dando início ao trabalho voluntário de organização de diversos arquivos de entidades privadas da cidade, como a Sociedade Rural, a Viação Garcia, a Casa da Memória Madre Leônia Milito, o Espaço Histórico Dom Geraldo Fernandes, a Capela Santa Helena, entre outros. Há cinco anos, a pedagoga aposentada Jurema Gonçalves Sartori, de 69, e a comerciária aposentada Áurea Esteves, de 72, também se uniram ao grupo e não medem esforços para dar continuidade à nobre tarefa.
Desde 2010, eles estão trabalhando no Colégio Mãe de Deus, numa pequena sala da parte térrea, que guarda uma espécie de "tesouro" sobre Londrina - levando em conta que a instituição educacional data de 1936, quando funcionava onde hoje fica o Edifício Palácio do Comércio. "Nos surpreendemos a cada momento e ficamos felizes em poder ter acesso a coisas que consideramos preciosas, como a ata da primeira exposição escolar realizada pelo colégio, a assinatura do escritor brasileiro Malba Tahan (famoso pelo livro "O Homem que Calculava") em visita ao colégio em 1949, onde diz que passou aqui momentos inesquecíveis, e até um recibo assinado pelo compositor Villa-Lobos", comentam, empolgados, os integrantes do grupo, que não escondem a amizade nutrida pelo tempo de convivência.
Disciplinados e persistentes, eles realizam um verdadeiro "trabalho de formiguinha" que dificilmente estaria sendo feito se precisasse ser remunerado. "Infelizmente ainda falta a valorização da cultura histórica na nossa cidade, principalmente no âmbito do poder público", salienta Elenice, lembrando que o grupo ainda deve ficar mais um ano no Mãe de Deus para concluir a empreitada. "Outra coisa que nos impressiona é o quanto o colégio desde o começo investiu na educação musical; o currículo dos profissionais da área de música que passaram por aqui é impressionante", avalia.
Apaixonados pelo que fazem, eles vibram com cada documento resgatado do fundo de uma caixa velha ou de um saco plástico empoeirado. "É interessante como depois que começamos o nosso trabalho as pessoas passam a valorizar os documentos históricos e prestam mais atenção no que está à volta, fazendo as mais diversas contribuições", pontuam.
Embora apenas o Amauri seja profissional na área de arquivologia, todas são aprendizes experientes no assunto e fazem com maestria o trabalho que se propuseram a realizar. "Utilizamos padrões internacionais de catalogação, embalamos os documentos com papel neutro e organizamos tudo para que seja possível que a entidade tenha um banco virtual de dados acessível a todos", explicam. Isso ainda inclui o registro fotográfico digital de todos os objetos catalogados e o seu arquivamento em computador. Só no Mãe de Deus já foram catalogadas cerca de 30 mil imagens (álbuns e fotografias), 12 mil negativos e 900 peças, além de 1.543 documentos impressos. Exemplo concreto de imenso amor pela "pequena Londres" que viram crescer e chegar agora aos 79 anos.



