Touraine prega fim do liberalismo absoluto
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sexta-feira, 31 de dezembro de 1999
Gilles Lapouge Agência Estado 
Como muitos historiadores e sociólogos, Alain Touraine vê o Século 20 comprimido, amputado nas duas pontas. Começa tarde, em 1914, e termina em 1989. Já abandonamos o Século 20 há dez anos. Estamos no Século 21.FUTURO JÁAlain Touraine: Abandonamos o Século 20 há dez anos. Estamos no Século 21.
AE O senhor daria alguma cor, algum sentido a estes 75 anos que ficaram?
Alain Touraine Falam-nos de economia, de crescimento da produção, do mercado, da globalização etc. E eu acredito que, dentro de 300 anos, quando se falar deste século aos alunos das escolas, os mestres irão apresentar uma imagem inteiramente diferente. O Século 20 será apresentado como o século dos Estados, como o século político. Em contraste, portanto, com o Século 19, que foi o século econômico: a Revolução Industrial, o intercâmbio comercial e, em certo sentido, o século das colonizações.
AE Mas os Estados do Século 20 são muito diferentes entre si?
Touraine Sim. Temos Estados que preservaram o sistema democrático (EUA e parte da Europa). Um segundo grupo é formado por regimes autoritários. Um terceiro inventou o totalitarismo. Faço uma pequena distinção entre autoritário e totalitário. Na América Latina, por exemplo, vejo poucos totalitarismos, com exceção talvez de Stroessner, no Paraguai, Mas, em outras partes, existem regimes autoritários, reacionários, mas que me parecem proceder mais do modelo franquista do que do modelo totalitário. Totalitário é com certeza o Nazismo. Mas também o Comunismo.
AE Como um país pobre poderia manter-se no mesmo nível de outros países que não somente têm um imenso avanço, mas não cessam de progredir rapidamente graças às tecnologias?
Touraine Isso não me parece impossível. Veja a Irlanda. Há 20 anos, ela tinha um atraso de um século em relação à Inglaterra. Hoje, nas altas tecnologias, a Irlanda compete em pé de igualdade.
AE E a América Latina?
Touraine Qual delas? Há pelo menos três Américas Latinas. Existe o grupo dos países que dependem dos Estados Unidos. Há os países que se afundam no caos. E, depois, existem os Estados do Mercosul, tendo à frente o Brasil. Este é talvez o único país da América Latina que pode razoavelmente acrescentar uma autonomia de decisão, desde que não seja inundado pelas desigualdades sociais e tudo o mais. Mas, basta compará-lo com os outros países. O México tem um redirecionamento soberbo, mas isso só se realizou sob as asas dos Estados Unidos. A Colômbia é um grande país, mas hoje é assustadora. Portanto, falar de uma única América Latina parece-me uma coisa ultrapassada.


