Toneladas de desrespeito
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segunda-feira, 14 de maio de 2007
Marcos Martins<br> Equipe da Folha 
Caminhando tranquilo pelo Centro da cidade, o jovem atira uma bituca de cigarro no chão. A alguns metros, uma senhora recebe um panfleto e o atira pela calçada. Pior faz um senhor, já de certa idade: sem cerimônia, ''deixa cair'' uma garrafa de água, antes de seguir seu caminho, pouco se importando com o que ficou pra trás.
Além da falta de educação, outro detalhe irá unir, em breve, as péssimas atitudes dos três personagens citados: a bituca, o papel e a garrafa irão parar em algum bueiro e, depois, nas galerias pluviais da cidade. O resultado certamente virá na próxima chuva: ruas alagadas e risco de enchente para centenas de moradores. ''A pessoa que joga o lixo no meio da rua é a mesma que vai reclamar que a água invadiu a casa dela'', ironiza a dona de casa Solange Garcia.
Quem conhece essa realidade de perto, há 10 anos, também critica a falta de conscientização da população. Rogério dos Reis, operador do caminhão sugador, máquina utilizada para a limpeza das galerias, já viu de tudo sendo retirado durante o serviço. ''São bitucas de cigarro, embalagens plásticas, garrafas pet e restos de panfletos. E dependendo do lugar, até pedaços de sofá, pneu, tapetes e animais mortos a gente acha'', revela. Uma ''vergonha'', segundo o aposentado João Carlos da Silva. ''O pessoal não ajuda, vai jogando de tudo. Não adianta ter esforço para limpar se o povo não tiver respeito para não sujar'', avalia.
Segundo dados da Secretaria Municipal de Obras Públicas, cinco toneladas de lixo e entulhos são retirados, diariamente, de bueiros e galerias pluviais em Curitiba. ''Todo esse material jogado acaba caindo nas caixas de captação de águas, entupindo galerias e provocando alagamentos'', afirma o secretário municipal de Obras Públicas, Mário Tookuni. Em 2007, mais de 6 mil metros de galerias da área central, região que concentra o maior volume de lixo, precisaram de limpeza. E as equipes encontraram um outro complicador: grande quantidade de gordura jogada nos locais.
''São alguns proprietários de lanchonetes e também donos de carrinhos de lanches e pipoqueiros, que poderiam dar outra destinação à gordura utilizada mas acabam jogando na galeria pluvial'', atesta Donato Ciorcero, gerente do Distrito de Galerias. De acordo com ele, o material acaba se juntando com folhas de árvores e restos de lixo, que muitas vezes são deixados por carrinheiros. ''A maioria é consciente mas alguns juntam todo o lixo e depois, quando separam, acabam largando pelo caminho o que não interessa. É aí que complica o trabalho'', avalia.
O custo mensal da limpeza chega a R$ 25 mil, que poderiam ser investidos em outras prioridades, caso houvesse respeito. ''Podia virar creche, remédio em posto de saúde, comida para o povo. E vai literalmente para o bueiro, né?'', argumenta a profissional liberal Andréia Garcia. ''Tem gente que está a alguns passos de uma lixeira e joga as coisas na rua, principalmente papéis de propaganda. Por que pegar se vai jogar no chão? É um absurdo'', reclama a estudante Vanessa Cardoso. Para o reciclador José Maria Nascimento, é preciso levar informação para seus colegas que insistem em deixar lixo pelo caminho. ''Eu aqui tô cuidando mas se os outros não fizerem a parte deles também, prejudica toda a classe'', avalia.
Segundo Donato Ciorcero, as equipes têm enviado relatórios para a Regional Matriz, que repassa ao setor de Urbanismo, que faz ações de conscientização junto aos carrinheiros e também com donos de lanchonetes e pipoqueiros. ''A fiscalização e a conversa com eles são muito importantes'', resume.


