Todos somos um pouco estrangeiros
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terça-feira, 04 de dezembro de 2007
Equipe da Folha 
Reunidos no último domingo no Bosque João Paulo II, que abriga o Memorial da Imigração Polonesa em Curitiba, representantes das etnias polonesa, alemã, portuguesa, ucraniana, japonesa, italiana e espanhola realizaram apresentações de dança e música na quinta edição do Natal das Etnias - Confraternização das Nações.
Celebrações como essa, que confirmam a diversidade étnica responsável pela formação de Curitiba e do estado do Paraná, são também um estímulo, através do lazer, para o resgate da identidade cultural de cada um. ''É uma forma de lembrar que todos somos um pouquinho estrangeiros'', avalia a filha de espanhóis Blanca Hernando Barco, coordenadora do Grupo Folclórico do Centro Espanhol do Paraná e vice-consul da Espanha.
A festa teve almoço e quiosques com produtos típicos da culinária polonesa e exposição de presépios, que segue até o próximo dia 31 de janeiro. São 55 presépios produzidos na Polônia ou por descendentes de poloneses em outros países, um presépio em tamanho natural e os chamados Szopki, presépios poloneses em forma de Castelo de Krakowia.
Ao lado da cultura polonesa a presença das demais etnias ajuda a enriquecer a confraternização de final de ano, de acordo com a coordenadora do Bosque, Danuta Lisicki de Abreu. Para Danuta, este formato deu certo porque Curitiba é um celeiro de etnias. ''O Papa uniu as religiões e os povos. Por que não fazer isso no bosque que tem o nome dele? Essa foi a intenção dele durante a vida, unir os povos'', defende.
Com famílias cada vez mais miscigenadas, a reunião de grupos de diferentes origens em festas é uma forma de mostrar as tradições aos filhos e continuar fazendo o que avós e bisavós fizeram, observa Blanca Barco. ''Eles trabalharam unidos para construir o Paraná. Os clubes nasceram da necessidade de manter a tradição viva. Hoje fazemos isso por lazer'', explica.
Neto de polonês, Igor Volanski, de 26 anos, diz que por causa da correria entre trabalho e faculdade acabou se distanciando da cultura e do idioma do avô. ''Falta convívio com ele. Quando escolhi um idioma estrangeiro para aprender não pensei na minha descendência. Pensei no que precisa e escolhi o inglês'', justifica.
O filho de poloneses Jorge Revers, de 48 anos, chegou a ter o idioma dos pais como primeira língua, mas com o tempo deixou de praticar e hoje lembra pouco do que aprendeu quando criança. ''Até os sete anos de idade eu não sabia nem 'a' nem 'b' em português. Eu conseguia ler (o polonês), hoje até isso é difícil. O português engoliu a língua mãe'', conta.
A vice-consul da Espanha lembra que nos últimos 50 anos houve uma mudança de valor. ''Hoje é importante falar uma segunda língua, naquela ocasião era importante falar o português. Quando alguém lembraria da descendência hoje se não fosse por causa do passaporte da comunidade européia?'', questiona. ''Mas a partir disso você acaba resgatando muitas coisas'', observa Blanca.
Professora de polonês na cidade de Casca, no Rio Grande do Sul, Marta Revers Czarnobay diz que na região onde ela mora a colônia polonesa está trabalhando para resgatar o interesse pela tradição dos mais velhos. ''Até bem pouco tempo era esquecido, agora estamos começando a despertar o interesse entre as crianças'', afirma.
A filha de Marta tem 17 anos e apresenta na rádio comunitária de Casca o programa Hora Polonesa. ''Se você preserva a língua, inclui toda a cultura, o costume, a dança. Cada povo tem sua raíz e nenhuma árvore cresce sem raízes. Temos que regar e preservar essas raízes para que não se perca'', defende Marta.


