Apesar de não ter nenhum caso registrado de dengue autóctone - isto é, contraída no local-, a comunidade de Curitiba e Região Metropolitana tem se empenhado para conter o avanço da doença. De acordo com a secretaria estadual de Saúde, até 14 de abril desse ano tinham sido notificados 294 casos nessa região, desses, apenas 18 foram confirmados, todos importados de outras localidades. O clima frio da Capital paranaense ajuda a explicar essa situação. Ele reduz o metabolismo do mosquito transmissor, deixando-o em estado de torpor.
Por sorte o mesmo não acontece com as crianças da Escola Municipal Maria da Luz Christo Lima, localizada no bairro São Pedro, um dos mais pobres da cidade de Rio Branco do Sul. Elas dedicam pelo menos um dia por semana ao combate à dengue. As atividades não incluem somente a distribuição de material educativo e informações sobre a doença. Desde o início do ano elas já construíram mais de 930 armadilhas para a fêmea do mosquito aedes aegypti.
Cada ''mosquitoteca'', como são chamados esses artefatos, recebe uma etiqueta com o nome do aluno e a data. As crianças levam as armadilhas para casa e as trazem de volta depois de 15 dias. Dessa forma é possível avaliar em quais regiões o mosquito apareceu e quando isso ocorreu. ''Por sorte até agora não pegamos nenhum'', comemora a diretora da Escola, Márcia Cristina de Paula. Isso indica que a região ainda está livre do transmissor da dengue.
A mosquitoteca foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ganhou notoriedade por utilizar material reciclável em sua confecção. Trata-se de uma garrafa pet cortada ao meio, onde é inserida uma pequena rede e um pouco de água para atrair a fêmea do mosquito. Após eclodirem os ovos depositados na armadilha, a larva não consegue sair.
As mosquitotecas são produzidas pelos alunos das terceiras e quartas séries da escola, que já estão habilitados a usar a tesoura. A fabricação das armadilhas é uma das partes mais animadas da aula.
''Esse tipo de trabalho rende bastante, é melhor que o quadro negro, eles memorizam mais'', avalia a professora Leila Maria Bonfim. Ao levarem a mosquitoteca para casa, os jovens estendem aos pais e familiares os cuidados com a doença.
De acordo com a coordenadora do Programa de Combate à Dengue de Curitiba, Márcia Saad, a população está bem informada, o que falta é uma mudança no comportamento das pessoas. Para essa missão, o melhor agente propagador são as crianças. ''Elas respondem mais rapidamente a mudanças dessa natureza'', avalia a cordenadora.
A publicidade dos casos ocorridos no Rio de Janeiro têm ajudado a incutir na população curitibana os cuidados necessários contra o mosquito. Mesmo sem a referência sensível de casos próximos, os alunos de Rio Branco do Sul sabem na ponta da língua o que é preciso fazer para manter a dengue afastada.
''No pratinho da minha planta, coloco areia toda semana'', garante Daiane Rodrigues dos Santos, 10 anos. Seu colega Mathan Júnior, 10, diz que às vezes é necessário até dar uma bronca nos pais para que eles aprendam a lição. ''Minha mãe deixa água parada no tanque, daí tenho que falar pra ela'', conta.
A luta contra o mosquito rendeu até uma divertida canção, na verdade uma paródia de um conhecido pagode para o qual os alunos da escola compuseram uma nova letra (leia nesta página).

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