Tipos indesejáveis - Verão sem noção
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de janeiro de 2010
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Todo mundo tem uma história de férias frustradas para contar. E o personagem central quase sempre é uma figura sem noção, que ignora limites e consequências simplesmente porque está fora da rotina. Para esse veranista, não basta se esticar sob o guarda-sol. Ele quer mais, quer tudo. O problema é que raramente paga a conta sozinho - e acaba atrapalhando o descanso de quem está em volta.
Concentrados na orla marítima, os bombeiros normalmente são os primeiros a lidar com os tipos indesejáveis da praia. Mesmo que o caso seja de competência da Polícia Militar, por exemplo, somos obrigados a intervir, explica o tenente Leonardo Mendes, que há anos participa das operações de verão. A pedido da FOLHA, ele listou os vacilos (e, em alguns casos, crimes) mais comuns nesta época do ano.
A começar por um dos temas da campanha de conscientização desta temporada: a queima de fogos de artíficio sem os devidos cuidados. Segundo o oficial, os fogueteiros de primeira viagem mal lêem as dicas de segurança contidas no rótulo do produto - que incluem, entre outras precauções, o isolamento da área onde serão montadas as baterias.
Outra turma em evidência é a dos veranistas metidos a corajosos, como aqueles que se arriscam a nadar em áreas sem balneabilidade ou não atendidas por guarda-vidas. Só no ano passado, 17 pessoas morreram por afogamento no Paraná. Os primeiros registros, de acordo com tenente, foram de dois rapazes que mergulharam de madrugada na Praia Mansa de Caiobá.
A ala dos intrépidos ainda conta com os trilheiros inexperientes, que acabam se machucando nos morros do Litoral. No último verão, resgatamos uma moça que torceu o pé quando tentava atravessar um rio. Se ela estivesse usando um calçado antiderrapante, e não chinelos, poderia ter evitado o acidente, exemplifica o bombeiro.
Segundo Mendes, são raros os casos de pessoas que se perdem, pois as trilhas locais estão bem delineadas. De qualquer forma, é importante deixar parentes e amigos informados antes de se aventurar. Outro cuidado fundamental é levar água e alimentação suficientes para períodos mais longos do que o previsto.
Enquanto alguns buscam um contato maior com a natureza, outros parecem ignorá-la completamente. São os sujões de plantão, que jogam lixo por aí sem a menor cerimônia. E não está se falando só dos farofeiros, muitos deles conscientes de que devem guardar os restos de seus banquetes para descartar mais tarde. De acordo com Instituto Ambiental do Paraná (IAP), há quem, ainda hoje, não tenha regularizado a situação do esgoto da própria casa de praia.
A poluição também pode ser sonora. Em tempos de tunning, DJs ambulantes circulam com carros que mais parecem trios elétricos. Com uma diferença: quem se diverte é só o motorista. A questão, no entanto, não para por aí. O som alto pode causar tumulto, porque muitos que se sentem incomodados partem para a briga com os donos dos automóveis, diz o oficial.
Há ainda os que brigam pelo simples prazer de brigar, os racheiros que colocam vidas em risco nas estradas, pilotos de jet ski que invadem a área dos banhistas... A lista dos sem noção é extensa, mas todos eles se tornam mais nocivos quando estão calibrados com o combustível oficial da temporada: o álcool. De acordo com o tenente, a maioria dos envolvidos nas ocorrências de verão são flagrados embriagados.
Birita à parte, o oficial faz questão de dizer que, no geral, os casos registrados no Litoral têm em comum a falta de respeito ao próximo. E convoca as pessoas a colaborar com as autoridades. Qualquer cidadão pode fazer uma denúncia ao verificar uma atitude que prejudique a coletividade, orienta.
O CORAJOSO
Ele mal sai à noite na orla, onde tem medo até da própria sombra. Mas vira um Indiana Jones da província quando chega na praia. Explora trilhas afastadas, sobe em pedras escorregadias e insiste em nadar nas áreas mais perigosas. Só que a vida real não tem dublê e, às vezes, a aventura pode terminar num baita mico. Ou pior: no leito de hospital, com direito a sermão de médicos e enfermeiros.
O TURBINADO
Não importa se a máquina é velha ou nova. O importante é envenená-la, de preferência com um motor que assuste só de roncar. Outro adulto infatilizado, o turbinado já desce para o Litoral tocando o horror na estrada. Mas quem diz que ele sossega? Mesmo na praia, dá um jeito de fazer seus rachas, às vezes até na areia, de madrugada. O da turma mais abonada ainda barbariza de jet ski, invadindo a área de banhistas e surfistas.
O PITBOY
Bem que ele tentou seguir a carreira de lutador profissional. Como não conseguiu, usa os parcos conhecimentos adquiridos na academia do bairro para extravasar sua frustração. Para o pitboy, tudo é motivo para ir às vias de fato. Basta um olhar meio enviesado e ele já parte para a briga. Um de seus alvos prediletos na temporada é o morador da praia, a quem chama carinhosamente de nativo.
O SUJÃO
Pode ser o farofeiro ou a patricinha que passeia pela orla, não importa. Há pessoas que simplesmente ignoram as lixeiras e transformam o litoral num grande depósito de palitos de picolé, espigas de milho, latas de cerveja, chinelos arrebentados, etc. Depois, não entendem por que dão de cara com as coisas mais nojentas quando estão nadando - e reclamam dos trechos da praia interditados.
O BEBERRÃO
Taí um sujeito que passa por uma transformação. Incialmente tranquilo e cordial, ele se modifica quando bebe umas a mais. O que não é difícil de acontecer, já que o álcool praticamente cai no seu colo durante o verão. Mas o beberrão prefere não contar com a sorte, e sai de casa com o porta-malas do carro abarrotado de latinhas. O azar, no fim das contas, é sempre de quem está perto e passa vergonha - principalmente a família.
O DJ
Para ele, não basta gostar de uma música. É preciso tocá-la no último volume para todo mundo ouvir. Parado na esquina ou circulando pelas ruelas do litoral, o DJ ambulante abusa dos graves e agudos em sua ânsia por atenção. Mas nunca espere uma trilha sonora tranquila, de bossa nova ou new age. Na parada de sucesso dos carros tunados, o que bomba são os hits de pagode, funk, tecno e sertanejo universitário.
O FOGUETEIRO
Ele não perde uma oportunidade de brincar com pólvora. O time perdeu? Não tem problema, comemora-se a derrota do rival - com muito barulho, é claro. Mas seu grande momento é mesmo no Réveillon, quando a cidade inteira se curva diante do show pirotécnico que o crianção comanda da areia. E se você ver um garotinho atazanando os outros com bombinhas, pode saber: é o filho do fogueteiro.


