As tintas da Folha de Londrina correm em minhas veias emocionantes e emocionadas como na primeira vez em que subi as escadas para a Redação há um quarto de século, um pouco mais que molequinho, para cair na vida jornalística e nunca mais dela me separar. É uma cicatriz profissional e pessoal que não posso e nem quero apagar; marca de pouco mais de oito anos como repórter, colunista, editor, enfim jornalista que, sem falsa modéstia, aprendeu nesta escola, nova, ousada, democrática, metida a besta, aliás, como a cidade em que ela nasceu. Convidado pelo Walmor Maccarini, depois de dois anos no tablóide ‘‘Novo Jornal’’, de curta mas excitante duração, fui integrar a Editoria Regional, chefiada pelo Jota Oliveira, na Folha. De lá pra cá deu no que deu. Faria tudo outra vez.
É covardia declinar nomes de pessoas que faziam e fazem este jornal-referência. Mas, não resisto à lembrança do Tenente, na boléia do Fusquinha, cortando o Paraná, cheio de histórias e milongas. Nem do Chico Rezende, mago das lentes, reportando em fotos os fatos. Ou o João Milanez, este catarina que deixou Meleiro para carregar o jornal nas costas e distribuí-lo em cada porta. Milanez, aliás, tinha dedos tortos e cérebro aceso: sabia-se de tiro curto nas letras, mas proclamava a qualquer menos avisado: ‘‘Não sei escrever, mas contratei este bando de comunistas para fazer isto pra mim’’.Albari RosaNo tempoNilson: subiu escadas da Redação 25 anos atrás
O bando tinha cores as mais diversas, da esquerda à direita, passando pelo centro. A Folha, registro, foi o jornal mais democrático que conheci. E parece ter sido este o seu tônico de crescimento. Um jornal que tinha coragem para dar uma primeira página inteira dedicada às ‘‘Diretas-Jᒒ e, em sua página 2, um editorial carrancudo assinado por alguém da TFP. Ou ainda um jornal que permitia que seus profissionais em greve assinassem um artigo, em suas próprias páginas, defendendo a paralisação.
Endiabrados éramos um bom naco dos jornalistas que passaram pela Folha. Ou escrever uma reportagem sobre jogo de futebol, em forma de diálogo de torcedores dos dois times, para a então existente Folha Esportiva, não era coisa de demos? O Walmor vibrou, colocou a página no mural, chamou a atenção para a inovação na linguagem, para o rompimento com o ranço nos códigos esportivos, e eu fiquei pelo menos umas duas semanas de peito inchado, orgulhoso. Ou, ainda, inventar um Caderno 2, que tratava de Bashô, Leminski, Drummond, Salvador Dali a Os Trapalhões.
Há milhões de histórias que a rédea curta do espaço evita. Guardo-as na alma, embora necessite, sempre, dividi-las, seja em letras ou em rodas de amigos. Na ‘‘Gazeta Mercantil’’, outro jornal marcante de minha vida profissional, onde vivi e vivo uma experiência animadora, companheiros de trabalho são meus cúmplices de histórias da Folha, desde as engraçadas, as conflitantes, as gratificantes...
O futuro? Só à reportagem pertence. Ela, que sempre foi a bússola da Folha em seu meio século. Fecho os olhos e me vejo, molequinho quase, subindo as escadas da Folha, o coração tresloucado de emoção, há 25 anos. O futuro é hoje.
- NILSON MONTEIRO é jornalista em Curitiba

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